Da Servidão Moderna

Documentário EXCELENTE que assisti. Interessantíssimo para se fazer uma autocrítica sobre o que pensamos, o que fazemos. Afinal, somos realmente livres? Ou apenas os escravos modernos mostrados pelo documentário?

A servidão moderna se dá em relação a um poder aparentemente inexistente – e por isso mesmo, muito mais eficaz – que se enquadra perfeitamente na definição de “poder simbólico” de Pierre Bourdieu* (os grifos são meus):

No entanto, num estado do campo em que se vê o poder por toda a parte, como em outros tempos não se queria reconhecê-lo nas situações em que ele entrava pelos olhos dentro, não é inútil lembrar que – sem nunca fazer dele, numa outra maneira de o dissolver, uma espécie de “círculo cujo centro está em toda a parte e em parte alguma” – é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem.

É por isso que o documentário acerta em cheio ao dizer que a maioria de nós hoje em dia somos escravos, mas acreditamos sermos livres. Este poder não se sustenta com base na violência (embora a use quando ameaçado), e sim, no convencimento. A partir de uma pretensa “neutralidade” (lembra algo, né?), conseqüência de “não ter ideologia”, nos é imposta a ideologia consumista, que valoriza mais o TER do que o SER. E para TER, é preciso OBEDECER cegamente, sentindo MEDO de fazer qualquer contestação.

“Crescer, estudar, arrumar um emprego, casar, ter filhos e morrer”: eis a síntese dos objetivos de vida de muita gente. Fazer o sistema funcionar, e se reproduzir para que ele continue funcionando: não é preciso se preocupar com a educação dos filhos, a televisão se encarrega disso.

Assista:

————

* BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, p. 7-8.

Anúncios

7 respostas em “Da Servidão Moderna

  1. Rodrigo,

    Excelente descoberta. Aliás, eu, mesmo, preciso ler Bourdieu, Foucault e outros. Por enquanto, tenho alguns Bauman…

    Na Comunicação, que é uma Ciência Social Aplicada, embora se empreste muitos conceitos das Ciências Sociais clássicas, tanto existe por parte destas últimas um preconceito em relação à Comunicação, pois muitos sociólogos e filósofos creem que sabem interpretar as relações com a mídia como ninguém, ao mesmo tempo em que pensam que nós, como integrantes de um campo do conhecimento ainda jovem, somos burros (a não ser que sejamos marxistas ortodoxos).

    Por outro lado, a Comunicação, que lida basicamente com fenômenos contemporâneos que não existiam na época em que a Sociologia e a Filosofia mais produziram conceitos novos ou que perduram pouco objecionáveis ao longo do tempo, deixa de beber da fonte pra interpretar direto autores mais atuais que leram os cânones, baseando-se, assim, nessas interpretações ao invés da palavra direta dos patriarcas.

    Hoje em dia, a Filosofia e a Sociologia clássicos não conseguem dar conta da sociedade fragmentada, para quem o tipo de mobilização em rede não condiz com o comportamento das massas, estudado a fio não apenas após o surgimento das mídas de massa (jornal, revista, TV, cinema, rádio), mas também durante as revoluções, migrações, etc.

    Na verdade, são duas maneiras de comportamento e de produção de conteúdo que se atravessam e que são atravessadas. Que influenciam e são influenciadas. Hoje, como o homem é produtor e difusor de conteúdo em rede, as ciências clássicas patinam mais do que a Comunicação para entender as mídias sociais e as redes sociais, sobretudo na internet.

    A complementaridade é tudo. Pena que muitos pensam que somente a sua linha de pesquisa é suficiente para compreender e – pretenciosamente – resolver” o mundo.

    O cerne da questão é que o campo da comunicação é o único campo social capaz de traduzir, de se inserir e de fazer circular um discurso simplificado acerca do discurso canônico de todos os demais campos sociais (político, religioso, esportivo, econômico, empresarial, educacional, cientifico, etc.). Isso faz com que o peso da Filosofia e da Sociologia que não se atualizam e que pretendem se achar os donos da verdade científica torne-se muito menor.

    Ao mesmo tempo, repito: a comunicação não pode se achar arrogante nem profunda sabedora de tudo. Porém, as Humanas clássicas não podem estender para a pesquisa de pós-graduação em Comunicação a lógica do simplismo, da manipulação e da espetacularização que se verifica na produção técnica do mercado de Comunicação.

    []’s,
    Hélio

  2. O trabalhador assalariado é servo do patrão

    Atenção: a frase abaixo não é de nenhum socialista:

    Senhor e servo são nomes tão antigos quanto a história, mas dados a indivíduos de condições bem diferentes; um homem livre torna-se servidor de outro quando lhe vende um certo tempo de serviço que realiza em troca de um salário que deve receber (…)

    John Locke, o Pai do Liberalismo, Segundo Tratado Sobre o Governo Civil, p.57

    http://blogdomonjn.blogspot.com/2009/09/o-trabalhador-assalariado-e-servo-do.html

  3. “A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, TODAS as relações sociais.” (Marx, Manifesto do Partido Comunista)

    Caro Hélio seu relato sobre as Ciências Humanas na área de Comunicação me surpreendeu já que nas Ciências Humanas da Ufrgs a linha dominante tem sido a de criticar (as vezes caluniar) os pensadores clássicos, ao passo que alguns nem tão brilhantes são exaltados.

    Te deixei a frase acima pois tem sido corrente se utilizar das novas tecnologias para decretar mais uma “insuficiência” do marxismo.
    E não pense que sou ortodoxo, acredito que o marxismo necessite de renovações – e nem teria como ser diferente afinal é uma teoria que se baseia na dialética e que já “previa” mudanças profundas no interior do capitalismo.

    Abraços!

  4. Jorge,

    Marx é extremamente importante para entendermos o mercado financeiro e para compreendermos as relações de trabalho e de dependência econômica sob a ótica das massas. Porém, mesmo tendo ele escrito o Manifesto Comunista e tendo suas idéias servido como berço do socialismo, penso que não é Marx quem esteja (ou estivesse) “defasado” ou “equivocado” em um determinado contexto social mas, sim, o fato de que grande parte da esquerda partidarizada, sindicalizada, conservadora e ortodoxa que ainda vê o mundo conectado como um embate entre classes não fez a leitura de Marx que mais se adequa àquilo que o autor pretendeu difundir e defender.

    Se eu penso em rede, penso na matemática e na biologia. Penso numa cidade como se fosse um formigueiro, penso nas ruas e nas estradas como se fossem circuitos elétricos ou, então, artérias. Tanto as trocas afetivas como as trocas comerciais (resultam do atravessamento, da simultaneidade e da ubiquidade da ocupação geográfica de um espaço digital paralelo também conectado ao espaço físico. Dessa forma, o tempo e o espaço são dissociados pela apropriação social, econômica e cultural do ambiente comunicacional decorrente das TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação – de ordem digital, em rede).

    Marx não podia falar de um contexto sociotécnico desconhecido e impossível de ser devidamente previsto, descrito, detalhado. E isso não é culpa dele.

    Tenho lido Negri e Hardt (Multidão, Império), Steven Johnson (Emergência), Chris Anderson (A Cauda Longa e Free), Henry Jenkins (Cultura da Convergência), Saskia Sassen, Manuel Castells, Peter Burke, Zygmunt Bauman… Muitos podem discordar deles. Porém, a maioria das discordâncias (embora legítimas), decorre da necessidade de se fixar nos valores da modernidade.

    Não há um espírito exatamente pós-moderno. Também acho que estamos muito distantes do que hoje muitos chamam de pós-humano (embora tanto uma experiência mal-sucedida na internet como o Second Life ou a potencialização da vida em um outro corpo que passou dos games para o filme Avatar não esteja “errada”). Particularmente no caso do RS, o tradicionalismo, o poder do latifúndio, o moral judaico-cristão e o fato de se generalizar tanto na mídia como nos microambientes desconectados predominantes em nossa sociedade ritos e práticas medievais me levam a considerar o RS como um lugar muito atrasado.

    As universidades de grande porte nem o tipo de economia e de sociedade forjada pelos descendentes de alemães e italianos podem levar à prosperidade e à uma prática mais dinâmica. Contudo, o conservadorismo e o apego às raízes torna o estado bem menos empreendedor.

    Quando falo em empreendedorismo, não falo em enriquecimento monetário e nem tampouco em economia neoliberal: perde-se muito tempo e muito dinheiro falando-se em inovação, cobrando-se criatividade, mas a rigidez desta sociedade a torna não um polo de atração mas, sim, um polo repulsor.

    Vou colocar dois links sobre a minha situação pessoal e sobre como o país lida com a formação para a pesquisa na minha área. Acho que isso explica um pouco melhor as coisas:

    http://heliopaz.com/2009/06/04/capes-mec-universidades-atencao/

    http://heliopaz.com/2009/08/28/apelo-a-mec-capes-cnpq-ppgs-em-comunicacao-e-universidades-em-geral/

    De uma maneira geral, a minha criação tradicional, a minha teimosia e a minha insistência tem a ver com o contexto cultural gaúcho. Porém, as portas da região que concentra a maior parte das instituições qualificadas de formação de mestres e doutores do país estão semifechadas, ao passo que o Governo Federal e as normas institucionais individuais de cada universidade federal costumam complicar a inserção e o desenvolvimento de regiões menores procurando gente pronta ao invés de crescer junto.

    Até mesmo estados e capitais de pouco apelo turístico, empresarial e agrícola surgem com esse tipo de empecilho.

    Enfim… Ninguém escapa de ser escravo. Não importa o peso e a profundidade do bolso, o idioma, se é índio ou se é dono da Microsoft: só muda atrás de que cada um deve correr…

    O que interessa é seguir tentando! ;)

    []’s,
    Hélio

  5. Caro Hélio:

    Achei suas colocações mto pertinentes mas ainda ñ tive tempo de ler seus artigos (prometo q os leirei assim q tiver um tempinho).
    Interessantes suas leituras mas tem professor de Sociologia lá na Ufrgs q iria descer o cacete em autores como Negri (q eu tb acho pertinente de ler). Isso é pra vc ter uma pequena idéia e ver como andam as coisas nas Ciências Humanas da nossa querida Federal…

    Mas acho pertinente tb – e faço isso com frequência – ler o q dizem e defendem os defensores do capitalismo. Às vezes aprende-se mto mais com eles do q com pretensos críticos do capitalismo. Quer ver uma coisa?
    Vc se referiu a questão das lutas de classes certo? Qdo Marx fez referência a isso ele mesmo colocou q elas nem sempre ocorriam de forma aberta e direta.
    Vc conhece um autor liberal chamado John Stuart Mill? Pois é ele defendeu, no século XIX, o voto plural onde cada classe teria um voto com um peso diferente: a classe dominante teria um peso maior, depois a pqna burguesia, depois a classe média,…
    Quer outro exemplo recente? A crise financeira nos EUA! Nela a classe média ñ perdeu a sua propriedade (q ñ é privada) para manter a propriedade privada dos banqueiros?
    Note q nesses dois casos tivemos um embate de classes onde àqueles q tiveram uma consciência de classe maior foram vencedores. E a classe dominante tem uma consciência de classe impressionante enqto nós ficamos a discutir (e alguns chegam a negar) a divisão da sociedade em classes…
    http://blogdomonjn.blogspot.com/2009/09/contra-historia-do-liberalismo.html

    Te confesso q inicialmente fiquei pasmo com a mediocridade intelectual de nossa Federal. Ouve-se barbaridades de professores de Sociologia tipo: reforma agrária já era, a culpa da queda do ensino na Alemanha é dos imigrantes, educação popular? (deuzulivre!),etc. E ñ pense q são professores q reivindicam o livre mercado! Se intitulam “progressistas”!
    Na última aula do semestre perguntei diretamente ao professor de Ciência Política como a sua disciplina estava vendo a atual realidade. Ele me respondeu (pelo menos de forma sincera) q a Ciência Política estava perdida! No q eu devolvi num sarcástico “eu já sabia”! KKK
    E nota-se q ñ é só a Ciência Política!

    Abraços!

  6. O campo da comunicação não simplifica e reproduz, fazendo circular de forma neutra e livre, o discurso canônico produzido pelos outros campos. Santa ingenuidade. O campo da comunicação tem, sim, a pretensão de – por meio de seu formato e de sua configuração simbólica específica – tiranizar e padronizar o que é produzido nos outros campos (às vezes, inclusive, contribuindo para a ascensão interna dos operadores dos outros campos por meio do fornecimento de uma espécie de capital espúrio: a dita “publicidade”). Quem quer ver como isso funciona, fique atento ao papel exercido pelos “intelectuais da mídia” dentro da academia.

    É preciso ser menos funcionalista, e ingênuo, na análise das relações estabelecidas entre os campos sociais. A coisa é bem mais complexa e, incrivelmente, perversa.

    Sobre o tal marxismo ortodoxo das humanas “clássicas”, sinto muito: é preciso se informar melhor, ler mais, conversar mais com as pessoas e tal pra saber o que acontece.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s