Lembranças do “meu tempo”

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

O trecho acima é do texto “A rua onde eu cresci”, publicado em 7 de julho de 2008. De tantos comentários elogiosos que recebeu, estou convencido de que foi um dos melhores que escrevi… (Espero então que agora receba uma enxurrada de críticas para que eu aprenda a ser humilde.)

Um ano e três meses depois, a Rua Pelotas, da qual falei, está menos verde: dois jacarandás, que estavam doentes, foram removidos em julho e setembro. E ainda há mais árvores doentes na rua, que correm risco de queda – aumentado com ventanias como as registradas na segunda-feira passada e ontem.

Essas horas, começo a de fato me sentir velho: “no meu tempo as coisas não eram assim”. As crianças brincavam na rua, e as árvores não estavam em mau estado.

Mas deixando um pouco de lado a “amargura de velho” e os prazos acadêmicos (afinal, a monstrografia está pronta na minha cabeça, mas boa parte dela ainda precisa ser traduzida ao papel), não custa nada lembrar algumas coisas boas da infância (dentre elas, não ter de escrever uma monstrografia).

  • No Natal de 1986 (sim, eu gostava de Natal!), chegou-se à solução de um sério problema: o que fazer para que eu comesse alguma coisa na ceia? Como eu sempre gostei muito de sopa (aprende, Mafalda!), a ideia foi de fazer um creme de ervilha. O “lance decisivo” foi a travessura do Papai Noel, que tomou um prato de creme de ervilha. Meu pai “ouviu um barulho”, foi verificar o que era e “expulsou o bom velhinho” (velhinho aos 35 anos???) a pontapés, por comer nossa ceia. Seguindo o exemplo do Papai Noel, eu quis creme de ervilha e assim, utilizando as palavras de Eric Hobsbawm (a academia me persegue, mesmo no passado), foi inventada uma tradição na nossa família, a do creme de ervilha no Natal, seguida à risca até hoje. Exceto a parte do Papai Noel: embora o “bom velhinho” ainda retornasse por mais alguns Natais (apesar dos pontapés de 1986), hoje ele foi deixado de lado, é claro;
  • Em novembro de 1989, a televisão começou a falar da queda de um muro em Berlim e de como aquilo era importante. Na hora eu não entendia o real motivo para tanta falação: achei que derrubar muros era algo digno de aparecer na televisão, então imaginei que se derrubasse um muro na Rua Pelotas, seria notícia no mundo inteiro. Ainda bem que eu não tinha uma picareta a meu alcance;
  • Na mesma época, tinha eleição para presidente. Eu já entendera mais ou menos o que era o negócio: os candidatos são eleitos mas não ficam o resto da vida “lá”, então periodicamente se realizavam eleições para determinar quem entrava no lugar. Então ouvi o noticiário dizer “os brasileiros votam para presidente pela primeira vez em 29 anos” e não entendi mais nada. Vale lembrar também que fizemos uma simulação daquela eleição na minha turma do colégio (eu estava na 1ª série) e o Brizola ganhou disparado, com direito ao meu voto. Depois eu aprendi a fazer o “L do Lula” para o segundo turno, mas infelizmente deu Collor;
  • Também na mesma época, durante uma ida ao Iguatemi com minha mãe, vi uma equipe da RBS, que acabara de gravar uma reportagem sobre… O Natal! Os caras se preparavam para levarem as fitas à emissora, mas de tanto eu encher o saco, aceitaram me gravar. E eu apareci na televisão! Ou seja: “meu passado me condena”;
  • Ainda em 1989, desta vez no dia de Natal, ganhei um “Pense Bem” de presente. Feliz da vida, quis chamar meus amiguinhos para conhecerem a novidade, mas todo mundo tinha ganho um “Pense Bem”;
  • No inverno de 1993, a Rua Pelotas sediou a inesquecível Copa América de futebol de botão, com a participação de quatro seleções: Argentina (Diego), Brasil (Leonardo), Equador (eu) e Uruguai (Vinicius). A Celeste foi campeã, mas não de forma invicta: na primeira rodada, perdeu por 2 a 1 para o Equador (que acabou em 4º lugar, ou seja, último). De qualquer forma, chora Vini!
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3 respostas em “Lembranças do “meu tempo”

  1. Camarada Rodrigo a infância e a adolescência são duas fases fantásticas da vida de uma pessoa. A primeira pela ingenuidade e a segunda por ser uma fase de descobertas. Mas claro q mtas pessoas têm essa fase marcada por sofrimentos e privações devido a situação econômica e/ou o ambiente familiar.

    Da minha infância lembro q eu gostava de criar meus próprios brinquedos. Eu pegava, por exemplo, uma caixa de pasta de dente, cortava no meio, fazia gaitas com papel e fazia um ônibus daqueles com duas plataformas.
    Desenhava personagens e máscaras.

    Ah… eu pegava aquelas sacolas plásticas grandes e lisas, cortava o fundo e desenhava camisas de times de futebol com caneta e pintava com giz de cera.
    Até uma vez brinquei com meus colegas de segundo grau qdo o nosso time estava sem fardamento no campeonato q eu podia desenhar em sacolas plásticas o nosso uniforme. KKK

    Q fase do c******!!!

    • Eu não cheguei a fazer fardamento de time de futebol. De botão, sim: antes do campeonato de 1994, como eu não sabia a cor da camisa do glorioso Cascavel-PR (campeão de 1992, sob meu comando), inventei que era cor de laranja, inspirado no uniforme da Holanda. E fiz escudinhos em forma de camisa, laranja! Tá certo que eu já me encaminhava para os 13 anos, mas os passatempos eram os mesmos da infância.
      Aliás, alguns continuam: ainda jogo botão! Se bem que esse ano ainda não tivemos campeonato…

  2. Rodrigo, adorei o post!
    Também compartilho da sua opinião. Acredito que ser criança ‘antigamente’ era mais saudável, as brincadeiras eram simples, os brinquedos então nem se fala, mas tinha um ‘q’ de inocência no ar e nas atitudes.

    Ninguém queria ser café com leite, a mulher do padre ou perder no pega-pega! Corre cotia, cabra-cega, taco, queimada etc eram as favoritas para brincarmos na rua. Hoje, isso não existe mais…

    Até os desenhos animados, para mim, os de nossa época eram mais legais. Não tinham tanta tecnologia, designers arrojados e efeitos especiais, mas eram tão divertidos.

    Enfim, acredito ainda, que as crianças de hoje podem achar que são coisas de velhos e que não trocam o vídeo game por uma corda ou um carrinho, mas para nós aquela ‘Velha Infância’ também é insubstituível e deixa saudades.

    Ps.: No meu blog também fiz um post com o tema criança. Mas, na verdade, são para os adultos serem um pouco crianças também, afinal o nosso dia a dia já é ‘grande’ demais… Se der , dá uma passada lá! (http://diapararelembrar.blogspot.com/2009/10/vivendo-como-criancas.html)

    Beijos,

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