A culpa não é do inverno

Se eu disser que hoje faz frio em Porto Alegre, estarei mentindo. Faz é muito frio.

Como eu não gosto do verão, não tenho do que reclamar. Se a estação mais quente do ano nunca tivesse temperaturas superiores aos 30°C em Porto Alegre, eu nem reclamaria (talvez até gostasse mais dela do que do inverno). Mas, tem. Muito calor e umidade: nada pode ser pior! Viro um verdadeiro sorvete entre dezembro e março: mais do que suar, eu “derreto”…

Claro que passar frio não é nada agradável também. Reconheço que é muito fácil dizer que adoro inverno, estando abrigado e agasalhado, inclusive digitando este texto com luvas nas mãos. Pois ao mesmo tempo, muita gente está literalmente congelando nas ruas de diversas cidades do Estado: pessoas que não têm um teto para passar a noite, nem roupas quentes. Deve ser terrível dormir em uma calçada com temperatura negativa.

Mas, se pessoas morrem de frio no Rio Grande do Sul, a culpa não é do inverno. Assim como não é a seca a culpada pelo flagelo vivido em muitos anos no sertão nordestino – e em 2009, no Rio Grande.

Ora, cadê a culpa da violenta desigualdade social no nosso país? E dos governos que nada fazem para evitar os problemas causados pelo clima, facilmente solucionáveis?

Existem lugares muito mais frios que o Rio Grande do Sul, onde as baixas temperaturas não causam tantas mortes: nosso inverno é fichinha em comparação com a Escandinávia, mas lá o frio não é uma tragédia social, justamente por não haver tão brutal diferenciação entre os mais ricos e os mais pobres. Assim como a solução para a falta de água no sertão nordestino (e mesmo no Rio Grande do Sul) é barbada e difícil ao mesmo tempo: barbada por bastar construir reservatórios suficientes para que a água da chuva possa ser utilizada nos períodos de seca; e difícil por depender da chamada “vontade política”, que muitos de nossos “representantes” demonstram não ter.

Ou seja: é muito fácil culpar o clima.

E se é fácil gostar do inverno estando abrigado do frio, também é fácil gostar do verão apenas por causa da praia, esquecendo que quem fica estudando e/ou trabalhando na cidade sofre com o calor sufocante.

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