Burrice global

No documentário “Muito além do Cidadão Kane”, que fala sobre o poder da Rede Globo no Brasil, Armando Nogueira, que trabalhava como chefe de jornalismo lá na época da eleição presidencial de 1989, disse que a edição do resumo do último debate antes do 2º turno, excluindo bons momentos de Lula e mostrando apenas os de Collor, foi “burra”, e que ele não deixaria que fosse ao ar se a tivesse visto.

O mesmo se aplica ao que aconteceu ontem (isso na visão de Armando Nogueira, pois para mim a edição do debate de 1989 foi manipulação pura e simples). Quando eu soube que o jogo Vitória x Grêmio, pelo Campeonato Brasileiro, seria às 4 da tarde, pensei: “ótimo, vai passar na TV aberta” (visto que, em geral, os jogos às 6 e meia da tarde/noite nos domingos só passam no pay-per-view, que eu não tenho em casa). Quando chamei um amigo para ver o jogo aqui, ele disse que ia passar Santos x Corinthians na Globo. Achei que ele estava errado, porque Vitória x Grêmio era às 4 da tarde, logo, seria essa a partida transmitida, pelo menos para o Rio Grande do Sul. Resolvi esperar para ver: não queria ir para um bar porque, como tinha de terminar a revisão de um artigo – cujo prazo de envio via e-mail encerrava ontem -, não achava uma boa ideia beber cerveja (mesmo com frio eu tomaria, ainda mais estando num buteco) e depois terminar a revisão de um texto acadêmico.

Na hora do jogo, liguei a televisão e… Passava Santos x Corinthians na Globo!

Suprema burrice da Globo. Não por causa de “birra contra gaúcho” e o escambau (até porque nunca vi nada igual à narração do 2º gol do Sport na final da Copa do Brasil de 2008, parecia que era gol de um time estrangeiro: pelo jeito a “plim plim” esqueceu que Pernambuco é Brasil). A Globo foi burra comercialmente mesmo. Tivesse transmitido Vitória x Grêmio, pelo menos para o Rio Grande do Sul, teria tido muito mais audiência por aqui do que com Santos x Corinthians.

Falo de audiência de verdade: muita gente deve ter deixado a televisão ligada, mas sem volume, para ouvir o jogo do Grêmio no rádio. Considerando que muita gente só olharia para ela quando saísse algum gol – ou seja, os anúncios feitos ao longo da transmissão do futebol não atingiram a maioria da audiência no Rio Grande do Sul, ainda mais que o único gol (infelizmente, foi do Vitória…) saiu no apagar das luzes.

Tudo bem que a audiência no Rio Grande do Sul não é tão grande quanto em Estados mais populosos. Mas que foi burrice da Globo, foi.

————

Outra coisa que me tira do sério em relação ao futebol brasileiro, é a questão dos horários dos jogos. Nesse caso, todos os envolvidos – televisão (Globo), CBF e clubes – têm sua parcela de culpa.

A rodada de ontem foi emblemática. Vitória x Grêmio, na sempre quente Salvador, foi às 4 da tarde (e sem transmissão para cá!). Inter x Avaí, na ontem gélida Porto Alegre (e o Beira-Rio, segundo o meu irmão, consegue ser ainda mais frio por causa do vento forte da beira do Guaíba), foi às 6 e meia da noite (sim, porque 6 e meia só é “da tarde” durante o verão). E o pior de tudo são os jogos às 10 da noite, no meio da semana, por causa daquela bosta de novela.

O torcedor, como sempre, que se lixe, na visão dos manda-chuvas do futebol brasileiro. Que compre o pacote do pay-per-view e assista o jogo em casa. Ou, se quiser ir ao estádio, aguente calorão, frio cortante… E chegue em casa na madrugada de quinta-feira, depois de gastar uma nota em táxi porque não tem mais ônibus.

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3 respostas em “Burrice global

  1. Saiu no jornal “Estado de SP”, em 31 de maio:

    Escrito por Ugo Giorgetti

    Um apelo às TVs: mostrem o Inter

    Falei do passado na última coluna e me dei mal. Disse que não houve incidentes na partida entre Corinthians e Fluminense em 1976, e que tudo se passou em santa paz. Fui corrigido pelo meu velho amigo, e grande diretor, Julio Xavier, citado na coluna e que, na ocasião foi ao Maracanã. Ao contrário do que afirmei, o carro do Julio foi emboscado na entrada do Rio, com gente pisoteando o capô, a lataria sendo afundada, vidros quebrados e sua camisa do Corinthians arrancada violentamente. Mulheres que estavam no carro também não foram poupadas. Ele me diz, por fim, que soube de facadas e tiros. É isso que dá mexer no passado. Never more.

    Por isso quero hoje me dedicar ao presente, e começo com um apelo. Senhores responsáveis pela programação das TVs, pensem um pouco nos pobres telespectadores de S.Paulo. Parem de nos mostrar jogos como os desta semana. Ainda há nesta cidade pessoas que gostam de futebol. Por favor, transmitam os jogos do Internacional de Porto Alegre. Não só em TV fechada, mas aberta, para todo o país, talvez em rede nacional como os pronunciamentos do presidente.

    Não adianta mostrar estádios lotados, com multidões esperando milagres de times medíocres. O Vasco deu pena. O time é horrível e, graças a Deus, entrou com um uniforme que nada lembrava o grande Vasco de outros tempos. O Corinthians, por sua vez, entrou de branco da cabeça aos pés, coisa que me lembrou o grande Santos, naturalmente, é claro até a bola começar a rolar. De Palmeiras e Nacional de Montevidéu nem é bom falar, tamanha a mediocridade.

    Por que nos são os oferecidos esses jogos? Simples: nunca olhamos as coisas que estão perto. Só vemos o que está longe e daí a razão de assistirmos embevecidosa a Barcelona e Manchester. Nada contra, são grandes times. Mas bem aqui, a uma hora e meia de voo de S.Paulo e Rio, se jogam um futebol de extraordinária qualidade do qual vemos aqui em S.Paulo apenas os gols e alguns lances nos noticiários noturnos. É pouco. Eu quero, e acho que muitos comigo, ver mais, muito mais de Taison, Andrezinho, Alecsandro, D’Alessandro e do magnífico Nilmar, de quem até Dunga foi obrigado a reconhecer o talento. Quero ver o Inter de Tite, um treinador que fala às vezes de modo misterioso, mas que transmite honestidade respeito. Aliás, sua saída do Palmeiras foi exemplar. Preferiu deixar o clube a ser desrespeitado. É assim que procede um homem. Tite agora está colhendo o que merecia.

    Enquanto os outros times apostam só no físico, na “determinação” e na monotonia da bola parada, o Inter aposta na bola no chão e no talento. No talento, na jogada individual, no drible em coisas que se julgavam perdidas para sempre.

    É claro que para jogar assim é preciso ter talento. Mas descobri-lo e valorizá-lo não é a maior das virtudes, o maior dos méritos?

    Os meninos do Internacional não surgem do nada. São descobertos, treinados e lançados por gente que tem a cabeça no lugar e sabe o que faz. Inclusive contratar, quando necessário. Não é um time imbatível, pode nem ser campeão, mas muitas vezes o campeão não é o melhor. É só campeão. Por isso renovo o apelo: quando quiserem mostrar futebol, aquele velho futebol, arte, que ninguém sabe exatamente o que é, mas reconhece quando vê, por favor, virem seus olhos e câmeras para o Beira-Rio.

    • Podem apostar, colorados: mesmo que o Inter jogue um bolão, não será prioridade da Globo… Afinal, Flamengo e Corinthians dão mais “ibope”.
      O mesmo vale em âmbito estadual, com a dupla Gre-Nal em relação aos times do interior.

  2. Pingback: Definitivamente, só pode ser burrice « Cão Uivador

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