Discussão inoportuna

Mês passado, divulguei aqui a palestra realizada pelo engenheiro Henrique Wittler a respeito da definição do Guaíba, se seria rio ou lago. Wittler apresentou diversos argumentos científicos que permitiriam classificar o Guaíba como rio – o que mostra não haver consenso acerca do assunto, visto que também com base em argumentos técnicos se pode chamar o Guaíba de lago, como os utilizados pelo Atlas Ambiental de Porto Alegre, coordenado pelo professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS.

A definição científica do Guaíba é uma discussão que cabe aos acadêmicos, e ela deve ocorrer em um ambiente propício a ela – ou seja, a universidade – e não na imprensa. E, seja rio ou lago tecnicamente, o fundamental é lutar pela preservação do Guaíba, que legalmente é rio (assim diz a Lei Orgânica de Porto Alegre, o Atlas Ambiental é um trabalho acadêmico, não uma lei).

A propósito, vale lembrar que o próprio Menegat reconhece que seu trabalho está sendo usado em benefício dos concretoscos (já que a área de preservação permanente em margem de rios chega a 500 metros, aí chamam o Guaíba de lago mesmo que legalmente continue a ser rio, para diminuir a APP para apenas 30 metros) e defende que lagos deveriam ser muito mais protegidos do que rios, pelo fato de suas águas serem mais paradas.

Ou seja: trata-se de uma inoportuna discussão entre dois defensores do Guaíba. Melhor seria se nem tivesse começado. Quem ganha com isso são os concretoscos.

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Atualização: a charge abaixo, do Eugênio Neves, ilustra bem esse post.

guaiba-fonte

2 respostas em “Discussão inoportuna

  1. Não é bem assim.
    Lago preserva 30 m e Rio 500m.
    O importante é questionar a não aplicação correta da lei com utilização da farsa de Lago adotada pela SMAM.
    Esta SMAJM teve como Diretor de 1994 a 1998 o Professor Menegat que éra ao mesmo tempo coordenador do Atlas e Professor da UFRGS.
    Um homem trabalhando e ganhando de três fontes quando na UFGRS éra de dedicação exclusiva.
    A faras começou em 1994 na SMAM e se perpetua sem lei nenhuma.

    • Wittler, considero que a farsa seja tratar o Atlas Ambiental de Porto Alegre, um trabalho acadêmico, como lei – para assim burlar a Lei Orgânica do município, que diz que o Guaíba é rio e assim a faixa de preservação deve ser de 500m – e não sua confecção.
      O Menegat defende uma faixa de preservação ainda maior para lagos – como mostra esse post do blog Jornalismo B – por considerá-los mais sensíveis do que rios, afinal suas águas não têm a mesma velocidade de escoamento.
      Há diversos argumentos técnicos dos dois lados: esses dias o Menegat enviou por e-mail um material ao Fórum de Entidades com seus argumentos para classificar o Guaíba como lago, da mesma forma que na tua palestra em 7 de abril apresentaste também diversos argumentos técnicos que permitem classificar o Guaíba como rio. É uma questão para a qual não há consenso, e isso não é ruim: todo trabalho acadêmico deve sim ser criticado para poder ser melhorado, mas isso deve ser feito dentro do âmbito acadêmico.
      Legalmente, a questão é o uso do Atlas como se fosse lei – o que ele não é. O que vale legalmente, é a LO, que trata o Guaíba como rio. Logo, a contestação não deve ser ao trabalho em si, e sim ao uso que estão dando a ele, com o qual nem o Menegat concorda. Tanto que não acredito que o trabalho coordenado por ele tenha definido o Guaíba como lago devido a “outros interesses” que não acadêmicos: afinal, ao defender uma faixa de preservação para lagos maior do que para rios, o Menegat se coloca contra tais “interesses extra-acadêmicos”.

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