O medo da gripe

Sempre que se começa a falar em pandemia de gripe (e a época atual não é a primeira: lembram de 2005, da gripe aviária?), percebo o quão interessante é a espécie humana. Nos orgulhamos de sermos “os maiores”, poderosos. Porém, somos postos de joelhos por seres microscópicos como os vírus: gripe, AIDS, dengue… Somos tão bons, mas ao mesmo tempo, tão vulneráveis.

Mas há algo pior do que a gripe, pouco importando se é “suína”, “aviária” ou “humana” – que é a designação mais correta para o atual surto. Trata-se do medo.

Claro que não é o caso de dizer “não vamos dar bola, conosco não vai acontecer nada”: provavelmente tenha se pensado assim em 1918 durante a gripe “espanhola” – que não era espanhola, provavelmente surgiu nos Estados Unidos mas começou a ser noticiada na Espanha, que por não estar envolvida na Primeira Guerra Mundial não censurava a imprensa. A pandemia de 1918 matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, dentre elas o presidente eleito do Brasil Rodrigues Alves, que doente à época da posse (15 de novembro de 1918), não assumiu, morrendo em 16 de janeiro de 1919. Naquela época, não se tinha viagens aéreas a torto e direito como hoje, mas em compensação não se dispunha de tantos meios para a cura do vírus. E não se pode esquecer que havia uma grande guerra em curso, que ajudou bastante a propagar a gripe pela Europa e também pelo mundo todo (ou alguém acha que algum governo mandaria fechar fronteiras para conter a gripe quando muitas delas estavam em disputa?).

O maior perigo da gripe, além da própria doença, é as pessoas ficarem tão assustadas com ela e assim aceitarem quaisquer medidas supostamente “contra a pandemia”, por mais autoritárias que sejam. Claro que não é o mesmo caso, mas a ditadura militar no Brasil começou como “prevenção”: a classe média da época, com medo do comunismo, viu com bons olhos o golpe militar de 1964. Era para ser apenas uma “intervenção provisória”, para “reestabelecer a ordem” e devolver o poder aos civis após a eleição presidencial prevista para 1965. Porém, o “governo provisório” durou até 1985.

É necessário que haja sim prevenção de verdade contra a gripe – ou seja, sem aspas, que não seja “prevenção”, com segundas intenções. Até porque a Organização Mundial da Saúde diz que há riscos de pandemia, mas que ela não é inevitável – então, nada de ficar “doente antes da hora”! Façamos como o Kayser: piada com os paranoicos. Até porque é disso que eles precisam: descontração, para desestressar.

gripe_suina

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3 respostas em “O medo da gripe

  1. Belo texto. O tratamento que os jornais estão dando à gripe é quase como uma ameaça terrorista iminente. Tanto é que informação, informação mesmo, tem muito pouca. Um grande portal (Globo.com ou Terra) havia colocado em uma notícia que o número de mortes no méxico graças à gripe PODERIA ser de até 160.

    O número de mortes no México relacionadas à gripe na época que saiu a notícia? 20

    • E agora, reduziram a 7…
      Lembra muito o “caso Isabella”: toda a hora a mídia tinha “conclusões” sobre o crime, que mudavam quase que de hora em hora. E como davam muito destaque, as pessoas queriam saber das últimas para não ficarem “desatualizadas”; aí a mídia dava destaque (com novas “conclusões”), as pessoas queriam saber mais…
      A diferença, é que uma gripe é muito mais importante que um assassinato. Só que agora a mídia provoca pânico nas pessoas (aliás, prevejo o mesmo por parte dos jornais do RS devido à febre amarela), enquanto no caso da Isabella o máximo que acontecia era alguém que acompanhava o tempo todo os noticiários pensar que o casal era culpado (mesmo sem que a Polícia tivesse concluído as investigações) e precisava ser condenado à morte.

  2. Fato. Essa corrida jornalística por um “furo” acaba resultando em uma série de notícias ERRADAS (as constantes especulações sobre transferências futebolísticas são um outro bom exemplo) e ninguém se dá conta.

    Imagina uma pessoa que tenha amigo ou familiar no México ler uma notícia que diz que foram 160 mortes. Sem contar que isso tudo pode muito bem gerar preconceito desnecessário contra habitantes dos países atingidos.

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