“Em porteira que passa um boi, passa uma boiada.”

Esse ditado gaúcho já foi citado diversas vezes, por várias pessoas, em relação ao Pontal do Estaleiro. Por falta de criatividade, o cito mais uma vez.

Foi aprovado um projeto ilegal (contraria lei federal sobre áreas de preservação permanentes) na Câmara Municipal, ontem. Será permitida a construção de edifícios comerciais e residenciais na área do antigo Estaleiro Só (Ponta do Melo). Espigões com o mesmo volume do Hospital de Clínicas.

O projeto original, enviado pelo prefeito José Fogaça, previa a realização de um referendo para o povo decidir. Mas aí começaram a dizer que era caro demais, ainda mais para tratar “apenas do Pontal do Estaleiro”. Então, o transformaram em consulta popular (na qual o voto não será obrigatório, e nem haverá campanha de rádio e televisão com tempos iguais para os dois lados), a ser realizada em um prazo de 120 dias. Mas atentem para um detalhe da emenda apresentada pelo líder do governo Valter Nagelstein (PMDB): se a consulta não for realizada no prazo, a lei entra em vigor automaticamente… Não é uma beleza?

E não se iludam, achando que ontem apenas se aprovou o projeto referente à Ponta do Melo. Pois já virou moda os nossos vereadores legislarem por partes – foi o que se viu no caso dos projetos da dupla Gre-Nal, aprovados em 29 de dezembro (entre o Natal e o Ano Novo, quando boa parte da população estava fora da cidade). Abriu-se o precedente para projetos semelhantes em toda a orla do Guaíba. O verão, que já é nojento em Porto Alegre, vai ficar ainda pior: os ventos provenientes do Guaíba, que aliviam um pouco o calorão, serão barrados por uma porrada de prédios. Não por acaso, me dizem que o Rio de Janeiro é uma beleza em Copacabana (à beira do mar), mas torna-se infernal à medida que se entra para dentro da cidade, já que os prédios na orla barram os ventos do mar.

Sem contar que o concreto em excesso ajuda a aquecer ainda mais o ambiente – bem diferente das árvores, que além de proporcionarem sombra também ajudam a diminuir um pouco a temperatura.

Sinceramente, quero acreditar que haverá a consulta, e que se a maioria votar contra o projeto, a vontade popular será respeitada. Mas, já penso seriamente em ir embora dessa cidade que em nome do “progresso” perde cada vez mais o que lhe resta de qualidade de vida. A primeira oportunidade que tiver para morar no interior (de preferência em uma cidade menos quente), agarrarei com todas as forças.

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2 respostas em ““Em porteira que passa um boi, passa uma boiada.”

  1. Está bem clara a intenção da “bancada do concreto”: agir com rapidez para atender ao fundamentalismo imobiliário que os favorece com vantagens econômicas. As Entidades que vêm apresentando estudos sérios sobre desenvolvimento sustentável e respeito às Leis do Estatuto da Cidade, não são ouvidas por estes vereadores. Espero que o Poder Judiciário reveja toda esta maracutaia.

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