Ato em frente à Folha é a máxima liberdade de expressão

A indignação contra o editorial da Folha de São Paulo que chamou a ditadura militar brasileira de “ditabranda” também fez surgirem defensores do jornal, e mesmo da ditadura. Como a própria Folha.

O jornal xingou os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides porque eles “não atacariam a ditadura cubana”. Porém, a questão em debate não é Cuba (país do qual a maior parte das pessoas fala sem conhecer muito – tanto por um lado quanto pelo outro): é o Brasil.

O mais incrível de tudo foi alguém achar que os cidadãos que estarão em frente à sede do jornal têm por objetivo “censurá-lo”, que “não prezam pela liberdade de expressão”. Ora, isso é uma bobagem sem tamanho: é justamente a liberdade de expressão que permite tanto à Folha expressar a opinião que quiser em seu editorial, como às pessoas discordarem, criticarem e mesmo protestarem.

E além disso, se tais “democratas” são realmente favoráveis à liberdade de expressão, não deveriam posar de senhores da moral, querendo determinar “quem pode” e “quem não pode” criticar a ditadura brasileira.

Abaixo, “copio e colo” na íntegra o artigo do Eduardo Guimarães que trata justamente sobre as comparações entre Brasil e Cuba.

Libres del paredón

Fico impressionado com a criatividade dos argumentos de alguns de meus compatriotas que tentam determinar quem pode e quem não pode criticar período ditatorial da história de um país no qual todos nascemos sem que cada um tenha antes que dar “explicações” sobre quais as ditaduras que já condenou ou não publicamente.

Ora, sou brasileiro. Cresci num país mergulhado num regime no qual certa vez, quando garotinho, perguntei em voz alta à minha mãe num restaurante o que era “comunista”, e pouco tardou para ela ser convidada a se retirar comigo do estabelecimento.

Esse é o Brasil que não quero mais. Quero o direito de criticar aquele regime no qual apenas cresci, mas no qual brasileiros de todas as idades e classes sociais tiveram dissabores muito maiores do que o de terem que sair de um restaurante por terem assustado as pessoas em volta com uma simples palavra, então proibida. Uma palavra que poderia facilmente condenar qualquer um à morte.

Minha família não tinha nenhum comunista e nem amigos partidários de tal ideologia. Jamais me envolvi com política na juventude, quando a ditadura militar já agonizava. Porém, sempre percebi os sinais da falta de liberdade de pensamento ao meu redor, e era assustador.

Não tenho que responder se critiquei o regime cubano, e isso simplesmente porque não o vivi. Muitos que estiveram em Cuba dizem que o país é uma maravilha humanista e outros que é um inferno de opressão. Os indícios que tenho me dizem que o regime cubano não é nem uma coisa, nem outra.

Quando vejo contarem horrores sobre Cuba e depois verifico seus indicadores sociais superiores, e quando vejo que em cinco décadas o povo cubano não tirou o regime do poder, penso que as críticas e elogios àquele país são produtos muito mais de convicções sobre fatores que não necessariamente o fator Cuba.

Enfim: o regime cubano não é uma unanimidade de críticas como é, por exemplo, o regime do Chile sob Pinochet. E não me venham fazer contabilidades do número de mortos, como se a ditadura que mata menos pudesse ser chamada de “ditabranda”. Tudo depende de quantos se levantaram para lutar, e aqui no Brasil foram menos e em outras partes foram mais.

Seguramente o regime chileno matou mais do que o nosso e ainda influiu em seu congênere brasileiro, pelo menos na retórica, pois a “ditablanda” de Pinochet acabou virando a “ditabranda” da Folha.

Nem por isso todos esses que andam exigindo atestados de “crítico de todas as ditaduras” ostentam críticas à ditadura chilena em suas versões desse “currículo ideológico” inventado pelo jornalão paulista.

Como se vê, trata-se de uma estratégia usada para vedar críticas a um regime que todos vivemos por meio de alusões a regimes que nem a milionésima parte dos brasileiros conhece. É uma estratégia espertalhona que visa turvar o debate sério sobre aquele período sombrio de nossa história recente.

O que me espanta é gente que elogiou e até ajudou a ditadura do país em que vive chamar de cínico e mentiroso quem não criticou a ditadura de um país em que não vive. Os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato pelo menos não emprestaram seus veículos para Fidel Castro levar prisioneiros ao “Paredón”.

2 respostas em “Ato em frente à Folha é a máxima liberdade de expressão

  1. “O jornal xingou os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides porque eles “não atacariam a ditadura cubana”

    Típica falácia de quem não tem o que dizer: ao invés de contra-argumentar, ataca a imagem dos críticos. A Folha fez uma cagada colossal e agora tá com medo de admitir.

  2. Não é isso não. Ninguém quer censurar o jornal, apenas coloca-lo na prateleira ideológica certa. Quando a Folha a poucos anos, colocou no ar um institucional, onde se dizia com o rabo preso com o leitor, e fazia uma subliminar intuindo que muito sofreu no tempo dos governos militares; eu achei muito estranho. Pois tinha na minha mente, que o jornal havia sentado na farda. O Estadão ao contrário. Lembro muito bem das receitas culinárias na primeira página.
    Então a Folha, que diga, o rabo preso não era, e ainda não é com o eitor.

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