A “pax guasca”

É dia de Gre-Nal, mas nem vou ficar falando de futebol. Até porque o assunto já gerou baixaria demais aqui durante a semana.

Virou reportagem especial na Zero Hora de sábado a polêmica sobre o artigo do diretor teatral Luciano Alabarse, publicado na edição de quinta-feira do mesmo jornal. No texto, ele reclama do suposto “clima de guerra civil que assola o Rio Grande do Sul”, fruto da tradicional bipolarização que se verifica na sociedade gaúcha em diversos aspectos (já que falei em Gre-Nal, o futebol – sempre ele! – é um deles).

O texto não apareceu por acaso. Alabarse reclama de que há uma “oposição intransigente” que “acusa sem provas”. Clara referência às denúncias feitas pelo PSOL contra o (des)governo Yeda.

(Aliás, por falar nisso, ontem assisti na TV à parte da reprise da sessão de quinta da Câmara de Vereadores. Cheguei no momento em que o vereador Luiz Braz, do PSDB, criticava o vereador Pedro Ruas e seu partido, o PSOL, por se utilizar do “denuncismo” contra Yeda. Estranho que o PSDB fez coisa muito pior contra Lula e Braz não criticou…)

O pior de tudo, é que tem muita gente que embarca na canoa furada do discurso da “pacificação”. Que na verdade significa “despolitização”. Gera apatia política.

Aliás, algo que já vivemos. Basta ver os resultados das últimas eleições no Estado (incluo a Prefeitura de Porto Alegre por tratar-se da capital, logo é a prefeitura mais importante do Rio Grande do Sul):

  • 2000: Tarso Genro (PT) conquista a prefeitura de Porto Alegre – último grande triunfo do PT no Estado;
  • 2002: quando se pensava que haveria polarização entre Tarso Genro (PT) e Antonio Britto (PPS), Germano Rigotto (PMDB) surpreendeu a todos e foi eleito governador, pregando “pacificação” e “união”;
  • 2004: José Fogaça (então no PPS) é eleito prefeito de Porto Alegre, também com um discurso “conciliador” (“Manter o que está bom, mudar o que é preciso”);
  • 2006: Rigotto era favorito à reeleição, pois ficara claro que entre o nada e o PT, o “politizado” povo gaúcho escolheria o nada porque o PT era o “demo”, contra a paz no Rio Grande do Sul. Mas para tentar tirar Olívio Dutra do segundo turno, muitos que votariam em Rigotto decidiram mudar o voto e optaram por Yeda Crusius (PSDB) – só que aí foi Rigotto que ficou de fora. Entre Yeda e Olívio, óbvio que os “politizados” escolheram Yeda, para manter a “paz”;
  • 2008: Fogaça (de volta ao PMDB) confirmou seu favoritismo à reeleição sem sobressaltos, pois ficara claro que entre o nada e o PT, o “politizado” povo porto-alegrense escolheria o nada porque o PT era o “demo”, contra a paz em Porto Alegre. Não se repetiu o “efeito Rigotto”.

Aliás, a última campanha eleitoral em Porto Alegre primou pelo “nada”. As diferenças entre os candidatos eram mínimas. Vera Guasso (PSTU), a que mais se diferenciava, era vista pela classe mérdia como “louca”.

Pois é à ela, a classe mérdia, que se dirige o discurso da “pacificação”. Ela é, em si, conflituosa. Vive um dilema identitário: é mais “pobre” do que “rica”, mas não se encaixa completamente em nenhum dos grupos (embora tenha a mesma mentalidade dos ricos). Os mérdios acreditam que “trabalhando muito” qualquer um pode ascender socialmente: daí o fato de acharem que os pobres estão nessa situação porque “são vagabundos” e que quem rouba é “mau por natureza” (mesmo que seja para matar a fome de um filho). Ninguém em sã consciência quer passar dificuldades, mas os mérdios creem piamente que um dia chegarão ao estrato mais alto. Jamais se identificarão com os “de baixo”.

Por se perceberem “no centro” do conflito, os mérdios são os que mais querem a tal da “pacificação”. Só que não é uma “paz justa” para com os dois lados da “guerra”. Não querem justiça ou igualdade, e sim, que “cada um aprenda qual o seu lugar na sociedade, e principalmente, a respeitar hierarquias”. Ou seja: que aqueles “baderneiros” parem de “fazer bagunça” por não concordarem com a ordem das coisas. E, se quiserem ter o mesmo tênis, ou o mesmo carro dos mérdios, que deixem de ser “vagabundos” e “trabalhem duro”.

A Zero Hora, que citei no começo do texto, é o jornal preferido dos mérdios. Não por acaso, o discurso de ambos é o mesmo. E é de uma incoerência tremenda, como mostra o Marco Weissheimer no RS Urgente: os mesmos que querem “pacificação” travaram uma verdadeira guerra verbal contra o governo Olívio entre 1999 e 2002.

E a “pax guasca” pregada por essa gente chega a me dar medo. É só ver a página 2 da Zero Hora do sábado. A seção onde se publicam cartas e e-mails enviados por leitores era dedicada ao tema “MP-RS x Escolas intinerantes do MST”. Não vou me dar ao trabalho de copiar todos os textos que a ZH permitiu serem publicados (a maioria favorável ao fechamento das escolas). Mas um dos leitores defendeu, em seu e-mail, o extermínio (sic) do MST.

14 respostas em “A “pax guasca”

  1. Rodrigo, os apoiadores do fascismo tb foram as pessoas de bem – estas que tem pavor dos pobres, justamente, por se perceberem mais próximas a este estrato social, quando gostariam é de ser ricos!!!

  2. Qdo os conflitos de classe se agudizam, com o protagonismo da classe explorada; ou qdo as oligarquias estão enrascadas, daí pedem paz!

  3. Um professor meu dizia que a ZH é o jornal mais reacionário do país. Pelo que o jornal vem apresentado há anos, é verdade, e no final das contas a ZH acaba dizendo pra classe média exatamente o que ela quer ouvir.

  4. Em tempo: eu esqueci, no post, de especificar o que é a “classe mérdia”. Pois pode parecer que qualquer pessoa de classe média é “mérdia”, o que não é verdade.
    A “classe mérdia” é o setor da classe média que pensa que é elite mas não é. Não passam de uns “lambe-botas” dos ricos. Eu sou de classe média, conheço pessoas de classe média que não são “mérdias”. Não dá para generalizar.

  5. Não cita nossos vereadores!
    A simples menção de alguns nomes que lá estão me comove tanto que começo a chorar. Especialmente quando se referem à “ética”…
    Realmente, é muito comovente ver pessoas de “tantas qualidades” representando a população.
    Snif…

  6. E o medíocre do Raul Pont vem com a pérola de achar que é irreal o discurso da pacificação. A Espanha e o Chile se desenvolveram econômica e socialmente exatamente porque aplicaram uma agenda de consenso. Irreal é o discurso superficial que não acredita que o ser humano tenha condições de convergir…

  7. Carlos Maia, Espanha e Chile chegaram ao consenso de que tinham que acertar as contas com seus passados de trevas (Franco e Pinochet). Coisa que o Brasil ainda não fez.

    É uma pena o que aconteceu com o PT gaúcho. No meu estado (Paraná) o partido também desapareceu. Restam PSOL e PSTU como partidos que ainda radicalizam o discurso e combatem a canalhice reinante. O PT já se sente parte dela…

  8. Carlos, eu acredito que o ser humano tenha condições, sim, de convergir. Inclusive acho que o maior problema da esquerda, é não se unir em torno das concordâncias – por isso existem inúmeros partidos de esquerda, que combatem mais uns aos outros do que à direita.
    E há muitos exemplos de união em torno das concordâncias, como o movimento contra o Pontal do Estaleiro: tem gente do PT, PP, PSDB, PSOL, sem partido etc. Em outros casos, ninguém se entenderia, mas neste, há um propósito em comum.
    Sobre o Raul Pont: sinceramente, “mediocridade” é não perceber os reais motivos da “campanha pacificadora” promovida por ZH & Cia. Ou será coincidência se falar em “pedir paz” no momento em que o (des)governo do RS perde legitimidade diante de tantas denúncias de corrupção? Pois se o PSOL mente, a Yeda poderia muito bem entrar com um processo por danos morais, mas não o faz, por que será? Se o PSOL for processado, terá de se defender mostrando as provas – e aí poderá requisitá-las ao MPF, se elas existem de fato.
    Como diz o ditado, “quem não deve, não teme”.

  9. Ótima resposta a do André.
    Aliás, considerando a verdadeira novela que é a questão da abertura dos arquivos da ditadura, se pode dizer que no Brasil o consenso a que muitos desejam chegar é o do esquecimento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s