Como reconhecer um direitoso

Esses dias, eu conversava com o amigo que citei naquele post em outubro, escrito um dia após o primeiro turno da eleição municipal. Lembrávamos de um fato cômico acontecido quando iríamos a um comício do PT em 2000, e não perdi a oportunidade de alfinetar: “pra ver como o tempo passa, naquela época tu era de esquerda, e hoje é de direita”. Ele respondeu: “não, eu era louco, hoje sou realista”.

Nada mais típico da direita do que isso. Pois reparem se existe algum partido forte e declaradamente de direita no Brasil. A resposta é não, e é válida mesmo considerando a mídia como um partido de direita, já que ela também não assume sua posição.

Em relação a pessoas, conheço apenas uma que se declara de direita. Que, obviamente, não é o amigo que citei, “realista”.

Porém, não dá para colocar toda a direita no mesmo saco. Existem dois tipos, conforme definiu um professor da faculdade com um exemplo bem simples: o conservador, se assaltado entrega os anéis para não perder (ou seja, para conservar) os dedos; já o direitoso (direitista raivoso) ou reacionário não aceita de jeito nenhum entregar os anéis, “frutos de muito trabalho duro” (mesmo que não sejam), e por isso acaba perdendo os dedos.

Ou seja, o conservador usa a cabeça e sabe os momentos de ceder, enquanto o direitoso não. Para citar dois exemplos: o primeiro é o meu amigo de direita, o segundo é o “realista”.

Mas só tal distinção não ajuda a reconhecer um direitoso. Ele tem mais características. Vamos a elas.

  • O direitoso é sempre a favor do “progresso”, como avenidas largas, viadutos e arranha-céus. Quem prefere um desenvolvimento sustentável, como ciclovias, transporte coletivo de qualidade e parques públicos, é “retrógrado” ou “ecochato”;
  • A famosa idéia de que “o trabalho dignifica o homem” norteia a vida do direitoso: nada é mais importante para ele do que trabalhar para melhorar a vida (dele, é claro). Quem recebe bolsa-família ou assemelhados é “vagabundo que não quer trabalhar”, mesmo que muita gente tenha voluntariamente deixado de receber o auxílio no momento em que passou a não mais necessitar dele para sobreviver;
  • Mas quem enriquece ganhando (diga-se jogando) na Bolsa de Valores não é “vagabundo” na visão do direitoso, mesmo que ganhe milhões sem fazer algo que possa ser chamado “trabalho”;
  • O direitoso, claro, é favorável à legalização da pena de morte. Afinal, quem rouba não o faz por viver na miséria e ao mesmo tempo ser estimulado pela mídia a querer ter o que os abastados têm, mas sim porque é “vagabundo que não aproveita oportunidades”. Logo, tem que morrer;
  • Mas, se a pena capital é aplicada em Cuba, o direitoso acha uma barbaridade e enche o saco de todos seus amigos e conhecidos que sejam de esquerda (em tempo: eu sou contra a pena de morte em qualquer lugar do mundo);
  • “Direitos humanos”, para o direitoso, é “defender bandido” (o que me faz lembrar de três postagens recentes do Valter: aqui, aqui e aqui);
  • O direitoso defende a ordem acima de tudo. Mesmo que seja absurdamente injusta e corrupta: em conflitos como ruralistas x MST e (des)governo Yeda x movimentos sociais, o reaça sempre é a favor dos primeiros;
  • Uma opinião implícita na mídia corporativa tem a incrível capacidade de, uma vez lida, ouvida ou assistida pelo direitoso, tornar-se opinião explícita dele;
  • O direitoso odeia o PT, esteja onde estiver e como estiver (ele ou o PT). Considera o partido como “bando de ladrões”, mesmo que haja partidos mais corruptos. Provavelmente tenha sido petista apaixonado no passado, mas desiludido com erros do partido no governo, tenha passado a acreditar que mudanças não são possíveis (como se “ser de esquerda” fosse sinônimo de “ser petista”), assim passando à extrema-direita: meu amigo “realista” se encaixa neste caso. Como diz aquele velho ditado, “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”;
  • Em geral, o direitoso não admite que é de direita. Mais: diz que essa divisão “direita e esquerda” é ultrapassada, coisa de “radical”;
  • “Radical”, diga-se de passagem, é a pessoa de esquerda na visão do direitoso – pouco importa se de centro-esquerda ou de extrema-esquerda. Bom, de certo modo ele está certo: “radical” é quem ataca o problema pela raiz. Porém, o direitoso não imagina que, errando, acaba acertando… Na verdade, ele nem quer saber: acha que está certo, e que quem não concorda com ele é “radical”.

Como os direitosos acham que os certos são eles e eu sou “radical” (no sentido errado da palavra), termino minha parte na “teoria do direitoso modelo” por aqui, passo a palavra aos leitores. Espero que os próprios direitosos me ajudem a aperfeiçoá-la.

Mas, claro, quem é de esquerda também pode comentar. Qualquer opinião é bem-vinda.

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15 comentários sobre “Como reconhecer um direitoso

  1. O “direitoso” é sempre favorável ao “estado mínimo” e que o “mercado” resolve tudo e também reclama dos tributos governamentais, mas na hora do “aperto” não acha nada ruim quando o governo coloca dinheiro público para “salvar” as grandes corporações.
    Os “direitosos” sabem muito bem “ir ao pote” do dinheiro público, especialmente de maneiras pouco lícitas…

  2. Já escrevi sobre o perfil do direitista

    Ser neoliberal e de direita é:

    – Defender a propriedade, mas invadir territórios de outros povos.

    – Condenar o nacionalismo para se apossar dos recursos naturais dos outros. Mas invocar o nacionalismo quando os povos querem controlar e desfrutar das riquezas naturais que foram entregues.

    – Considerar os investimentos em saúde, educação e previdência como “gastos”.

    – Alegar que o Estado não tem dinheiro e que por isso é preciso privatizar as estatais, mas comprar as empresas públicas e investir com dinheiro desse mesmo Estado “falido”.

    – Exaltar a democracia, mas ter apoiado as ditaduras militares.

    – Falar de liberdade de expressão, mas defender a restrição ( e até a supressão ) de movimentos democráticos reivindicatórios.

    – Chamar presidentes eleitos de ditadores e golpistas de democratas.

    – Chamar o Estado de ineficiente e exaltar a “eficiência” dos mercados, mas recorrer a esse mesmo Estado quando a eficiência dos mercados falha.

    – Taxar de privilégios as conquistas sociais obtidas com luta.

    – Criar adjetivos pomposos para ocultar o caráter impopular das suas medidas. Ex: flexibilização das leis trabalhistas.

    – Considerar retrógrada qualquer proposta alternativa e propalar modernidade de um modelo que ruiu em 1929.

  3. Rodrigo!
    Ótimo texto: enxerguei muitas pessoas que estão à minha volta…
    Acrescentando: direitoso é aquele que acha “de última” ensino público e jamais colocaria seu filho numa escola onde há marginais, professores que não querem trabalhar, equipamentos ultrapassados, etc., mas paga colégio particular e cursinho caríssimo para ele passar na UFRGS. Se ele não passa, fica putíssimo… E ,nesses tempos de cotas para negros, crê que estão roubando a oportunidade de seu pimpolho, dando-a para quem não tem preparo suficiente para entrar no mercado de trabalho…
    Abraço!
    Fátima

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