Burrocracia

Neste semestre, curso na faculdade uma disciplina chamada “Estágio Preliminar”. Só esta disciplina já mereceria um bom artigo a respeito, visto que meu curso é noturno, mas havia uma orientação de juntar a turma da manhã e a da noite em uma única, à tarde. Chega até a parecer coisa do governo Yeda… Sem contar que os alunos teriam obrigatoriamente de ter uma tarde disponível na semana para realizar as atividades práticas: é difícil de entender que se pense algo assim para um curso noturno, onde se pressupõe (ou pelo menos se deveria pressupor) que os alunos trabalham o dia inteiro.

Mas o mais inacreditável é quanto às atividades que realizaremos no Arquivo Municipal Moysés Vellinho. Mesmo que sejam apenas cinco dias de atividades – que se darão em quartas-feiras à noite, finalmente o curso voltou a ser noturno! – os alunos precisam assinar um contrato de estágio não-remunerado. A professora que orienta o estágio nos deu as indicações: tínhamos de levar documentos (cópia de identidade, CPF e comprovante de matrícula) à Secretaria Municipal de Cultura, à qual está vinculada o Arquivo. Fui muito bem atendido na SMC quando lá estive para entregar a papelada (dia 8 de maio), e fui informado que cerca de uma semana depois eu seria contatado por telefone para a assinatura do contrato. Até aí, tudo ótimo.

Ontem à tarde, recebi uma ligação, avisando que o contrato estava pronto, e que eu deveria passar na Secretaria Municipal de Administração, para a assinatura.

Foi o que fiz na tarde desta sexta-feira. Porém, havia muita gente lá. Quando fui atendido, me foi solicitado o documento de identidade, e fui informado de que deveria aguardar a chamada pelo nome. Perguntei quanto tempo levaria, e a resposta que recebi foi: “não sei”.

Olhe bem: era aproximadamente duas e meia da tarde. Às quatro, eu teria de estar no Museu Júlio de Castilhos, em um seminário sobre os museus históricos no mundo contemporâneo. Quando disse à mulher que me atendia que eu teria de ir embora antes das quatro – obviamente com o sentido de receber dela uma informação, se seria ou não atendido antes das quatro – ela simplesmente me devolveu a carteira de identidade e disse: “então o senhor volte quando puder esperar”. Ou seja: eu não ficaria menos de uma hora naquele lugar. Obviamente, fui embora.

A pergunta que faço é: por que raio de motivo devemos entregar os documentos à Secretaria Municipal de Cultura e assinar o contrato na Secretaria Municipal de Administração? Mais: por que porra de motivo centralizar tudo em um só lugar? Como o Arquivo Moysés Vellinho é vinculado à SMC, o contrato poderia muito bem ser enviado à SMC para a assinatura.

Voltarei à SMA na segunda-feira de manhã. O mais cedo possível. Pois paciência não é minha principal virtude. Ainda mais para assinar um contrato para estagiar cinco dias, sem receber um centavo por isso.

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4 comentários sobre “Burrocracia

  1. Cara, e eu que tive de dar aulas de graça por causa do estágio quando estava por me formar no curso de Letras. Tudo isso porque a professora da disciplina era a diretora da escola e em alguns dias em que estava estagiando, alguns professores faltaram. Aposto que ela colocou como se tivesse chamado substituto, mas guardou o dinheiro para o fundo de assistência às diretoras que exploram seus alunos da faculdade!

  2. Não é curioso que muita gente da História critique o capitalismo, o trabalho (quase?) escravo na Ásia, mas no próprio curso a gente encontre uma prática de mão-de-obra gratuita travestida de aprendizagem?

    Isso dá muito pano pra manga, parece ser a mesma linha de pensamento que vê a tortura e os assassinatos da ditadura militar e do nazismo como diferentes dos da Revolução Soviética, do tipo “quando é pra gente pode”.

    Abraços!

  3. Falou tudo, Valter!
    O que mais percebo lá na História é a incoerência reinante. “Quando é pra gente pode”: condenam a prática de uns, mas fazem EXATAMENTE a mesma coisa. Na representação estudantil, atacam a gestão quando estão na oposição, aí depois de ganhar a eleição fazem A MESMA COISA que tanto criticavam…
    Aliás, nossos ditos representantes estudantis adoram criticar o capitalismo, defender “a revolução”, mas não vi nenhum deles se mexer a respeito dos absurdos que temos no nosso currículo de graduação, como o curso noturno que obriga os alunos a terem uma tarde livre para “estagiarem” sem receber nada em troca – nem mesmo em aprendizado.

  4. Pingback: Burrocracia 2 « Cão Uivador

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