Teoria e prática 2

A postagem anterior, na qual citei um trecho do livro “Sobre a Televisão” de Pierre Bourdieu e depois mostrei um pouco de como aquilo se dava na prática para “confirmar a teoria”, acabou “rendendo” mais devido a uma expressão que usei: “livre concorrência”. No caso, ela se aplicaria às emissoras de televisão aberta no Brasil. Resultado: “apanhei” de tudo que é lado.

O Diego, em comentário, disse que no Brasil não há “livre concorrência” entre as emissoras de TV aberta no Brasil, pelo fato delas serem concessões públicas: ou seja, elas estariam nas mãos do Estado. Porém, nenhum governante jamais ousaria, por exemplo, cassar (ou não renovar) a concessão da Rede Globo. O único que talvez pensasse em fazer isto seria Leonel Brizola, que em sua campanha para presidente em 1989 atacava abertamente a Globo.

Resultado: a Globo atacou Brizola de tudo que é jeito, e impediu a ida dele para o segundo turno, quando teria boas chances de derrotar Fernando Collor. Ela mostrou a Brizola quem realmente detém o poder neste país.

Mas, é justamente o fato da Globo ter todo este poder que mostra o meu erro, como lembraram meus colegas de faculdade em conversa antes da aula de ontem à noite. Esta “livre concorrência” entre as emissoras de televisão não existe pelo simples fato de haver, se não um monopólio, um amplo domínio da Globo: só recentemente ela passou a sentir-se ameaçada pela Record, que mandou os programas religiosos para a madrugada, para transmitir nos outros horários atrações mais viáveis comercialmente. Porém, a Globo ainda detém uma ampla vantagem sobre a rival.

Assim, digo: não há a “livre concorrência” à qual me referi. Mas isto se deve ao grande poder da Globo, que impede uma concorrência realmente livre: prova disto é o fato de que demorou até termos duas alternativas de canais para assistir o Campeonato Brasileiro, apesar de que tanto Globo como Record, como lembrei no post anterior, transmitem o mesmo jogo, o que não nos proporciona verdadeiramente uma “nova alternativa”. De certa forma, é a Globo que acaba pautando as outras emissoras: isto não invalida o que Bourdieu escreveu – pois a “informação sobre a informação” para os outros canais acaba realmente vindo dos outros informantes (no caso, da Globo) -, mas sim a minha afirmação de que há “livre concorrência”.

A afirmação do Diego, de que “a TV aberta está nas mãos do Estado, pois é concessão pública” é verdadeira, mas apenas na teoria. Na prática, a TV (principalmente a Globo) é mais forte.

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Continuando a responder ao comentário do Diego na postagem anterior, digo que concordo totalmente em relação à decisão da concessão – ou não – ficar nas mãos do presidente da República: também acho um absurdo que um ato tão importante dependa de uma única pessoa. Pois sempre haverá a tendência de favorecimento político dos aliados, dando-lhes concessões de rádio ou TV, como aconteceu muito durante a ditadura e mesmo depois da volta da democracia. Penso que uma boa idéia seria um conselho formado por várias pessoas, e no qual todos os Estados brasileiros estivessem representados, para decidir sobre as concessões.

5 comentários sobre “Teoria e prática 2

  1. Para vermos como, em última instância, o poder é do Estado, basta lembrarmos de como as atuais emissoras obtiveram as concessões de seus canais de TV: via “favores” aos governos, ou dos governos para com elas. Foi o exercício de lobby sobre o Estado que formou as grandes emissoras brasileiras de da atualidade.

    E um “conselho formado por várias pessoas” não reduziria as relações de lobby existentes aí (lembremos que o Congresso Nacional, por exemplo, também é um tipo de “conselho formado por várias pessoas”, e sofre forte lobby de diversos setores sociais e econômicos), sem falar dos critérios duvidosos de escolha dos membros que esse conselho teria. Seria uma espécie de “Conselho Federal de Jornalismo” (lembra?), que, visando “melhorar o nível do jornalismo no Brasil”, criava um mecanismo de censura e controle da imprensa por parte do Estado.

    Se o Brizola podia, qualquer um pode! É esse o problema! Não podemos ficar dependendo do “bom coração” dos nossos governantes.

    Abraço.

  2. Diego,

    A escolha dos membros do conselho poderia se dar mediante concurso público, e cada conselheiro teria ocuparia o cargo por tempo determinado, dois anos talvez. Quando se encerrasse este tempo, haveria novo concurso público. Mas, isto é somente uma idéia, que duvido que algum dia venha a ser posta em prática (a não ser que eu me torne presidente e passe por cima de Congresso, Senado e mídia, o que não é fácil).
    Quanto ao Brizola: atacar a Globo, realmente qualquer um pode. Eu posso, tu podes, o Brizola podia. Mas ele perdeu a eleição. Ou seja: fazer algo além do ataque, que em 1989 seria cassar a concessão, na prática ninguém podia, pois quem adotasse uma postura hostil à Globo seria massacrado por ela, sofreria o que Bourdieu chama de “linchamento simbólico”. Tanto que, no Rio de Janeiro, o Brizola era amado ou odiado, não há meio termo. Exatamente o mesmo que acontece (ou pelo menos acontecia) com o PT aqui no Rio Grande do Sul.

    Abraços!

  3. Um bom documentário que, entre outras coisas, mostra um pouco o esquema de concessão no Brasil é o “Muito Além do Cidadão Kane”, procura na internet, muito bom.

    Sobre o monopólio da Globo, ele é tão grande que a Record, com seus milhões que não pagam imposto porque vêm de doações feitas a sua Igreja, só conseguiu alavancar o Ibope ao imitar na cara dura a programação da Globo. Pode ver lá: programas de variedades, novelas, telejornais, tudo no estilo Globo de produção. Aliás, uma das primeiras atitudes da Record foi contratar vários rostos conhecidos da Globo para sua equipe.

  4. Não há como evitar dizer que a mídia é o quarto poder. Mas não considero mais a Globo tão poderosa. Ainda é a maior máquina de comunicação do país, no entanto não tem mais a mesma hegemonia de antigamente. Convivendo dentro de uma afiliada, aprendi que a lógica lá é reativa e com uma audiência que começou a se subdividir, mais cedo ou mais tarde, as coisas mudam… A tv digital vai deixar isso mais claro.

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