Teoria e prática

Primeiro, a teoria:

Caso se pergunte, questão que pode parecer um pouqunho ingênua, como são informadas essas pessoas encarregadas de nos informar, fica claro que, em linhas gerais, são informadas por outros informantes. (…) Mas a parte mais determinante da informação, isto é, essa informação sobre a informação que permite decidir o que é importante, o que merece ser transmitido, vem em grande parte dos outros informantes. E isso leva a uma espécie de nivelamento, de homogeneização das hierarquias de importância.¹

Agora, veja como isso se dá na prática: cobertura incessante do “caso Isabella” por todos os canais de televisão, dois canais concorrentes (Globo e Record) transmitindo o mesmo jogo (Coritiba x Palmeiras) na tarde de domingo, todos os canais (até os que não transmitem futebol) dando o máximo de atenção à Copa do Mundo quando ela se realiza etc.

Enfim: dizem que a “livre concorrência” nos dá mais alternativas, mas na televisão eu não percebo muitas…

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, pp. 35-36.

5 respostas em “Teoria e prática

  1. Rodrigo;

    A televisão no Brasil NÃO opera em “livre concorrência” – elas são concessões públicas, ou seja, estão nas mãos do Estado.

    Seria “livre concorrência” se acabássemos com a TV aberta. A partir do momento em que NÓS (e não a publicidade) passássemos a pagar pela programação a que assistimos, passaríamos a ser mais seletivos, e as emissoras não precisariam mais produzir programas em massa, de entendimento comum, para aumentar a audiência e, assim, vender seus horários à propaganda. Por isso que a TV fechada é mais “democrática”, com espaço para mais públicos e com programas de melhor qualidade.

    Por favor, nunca mais repita que a TV (aberta) no Brasil opera em “livre concorrência”, seja lá o que tu quiseste dizer com isso.

    Abraço.

  2. Diego,

    A TV aberta é, sim, concessão pública, que na teoria está nas mãos do Estado.
    Porém, imagina se decidem não renovar a concessão da Globo. Se o presidente anunciar a não-renovação com antecedência, a cobertura do canal se volta totalmente contra ele, como se não tivesse o direito de não renovar a concessão.
    E, além disso, há programas totalmente apelativos, com único objetivo de alcançar audiência (diga-se levar telespectadores de um canal para o outro), exibidos nas tardes de domingo. Simples: mais gente assiste, assim mais empresas querem anunciar (e pagam bem para isso) naquele programa. E aí, obviamente a emissora irá mantê-lo. Ela precisa dos anúncios, dali ela obtém seu lucro.
    Aliás, exatamente da mesma forma que a mídia paga. Assinantes e vendas em bancas não mantém um jornal ou uma revista semanal: é preciso ter anunciantes para que a publicação sobreviva – então, dê-lhe “Isabella”… E a TV fechada também tem publicidade: não tanto como a aberta porque as assinaturas podem não mantê-la mas “ajudam”, enquanto a TV aberta depende unicamente da publicidade. É verdade que há mais qualidade nos programas da TV fechada, mas ela também é comercial.
    É tudo por audiência. O objetivo é vender, não informar.
    Se a TV aberta no Brasil não opera em “livre concorrência”, então me explique o que é esta “livre concorrência”. Pois, que eu saiba, não há favorecimento do Estado a nenhum canal aberto operado por empresa privada: se isto não é “livre concorrência”, quero saber como chamar isto para não repetir mais o erro. Pois enquanto não me convencerem de que estou errado, continuarei a usar a expressão.

    Abraços

  3. Rodrigo;

    Na minha opinião, a decisão de conceder ou não, ou renovar ou não, a concessão de um canal de TV não pode ficar nas mãos de um presidente. Isso é um absurdo! Em última instância, assim, quem tem domínio sobre a mídia televisiva é, sim, o Estado. E, embora não haja favorecimento (explícito) a nenhuma emissora por parte do Governo, há, mesmo que involuntariamente, uma pressão sobre elas, simplesmente por saberem que seus contratos dependem da vontade de um “manda-chuva”. Nesse contexto, a TV nunca vai ser realmente livre.

    Quanto às tuas críticas aos “programas de domingo”, concordo plenamente: também acho a programação da TV uma porcaria. E era daquilo que eu estava falando: a TV precisa de audiência para vender propaganda, o que torna apelativa sua programação. Se a receita das emissoras não dependesse da propaganda, mas sim da qualidade de sua programação, estas seriam incentivadas a fazerem programas melhores. Isso ocorreria se pagássemos pela programação, da mesma forma que pagamos por outros produtos num supermercado, comparando preços e qualidades diferentes. Por isso que a TV fechada permite canais, por exemplo, só de filmes, só de desenhos animados, só de música, e (por que não?) só de pornografia. Sua programação não é massificada, existe espaço para todos os gostos e, ao escolhermos, canal por canal, os que pelos quais queremos pagar, temos maior liberdade de escolha.

    Claro, também há publicidade na mídia paga, como jornais e revistas e nos canais de TV fechada. Mas, ao comprarmos um jornal, estamos comprando a notícia, o conteúdo, seja ele qual for; com uma revista, ou com um canal de TV fechada, também. Agora, imagina se recebêssemos de graça, todos os dias, um jornal na nossa casa. Que conteúdo tu achas que ele teria? E que poder ele teria sobre a sociedade?

    Sei que existem restrições técnicas para a “livre concorrência” na TV aberta, mas que, até onde sei, serão reduzidas com a introdução da TV digital, como a limitação das ondas de transmissão e os custos dos equipamentos. Mais razões para enfatizar que a TV aberta, no Brasil e em quase todos os lugares, NÃO opera em “livre concorrência”.

    Abraço.

  4. A televisão não está nas mãos do Estado. O Estado é apenas o “poder concedente”.
    E nossa “livre concorrência” é um jogo de cartas marcadas. Os telespectadores são apenas massa de manobra para valorizar o CPM (custo por milheiro) e vender mais anúncios. Mas em nosso sistema consumista não dá para imaginar uma programação com boa audiência sem o “lixo” costumeiro, que dá audiência e que permite por isso mais anunciantes.
    Querem melhorar a qualidade da TV?
    Basta investir mais na educação e cultura dos futuros telespectadores. Essa geração, já está perdida…

  5. Acho que a dependência das emissoras em relação à propaganda é um consenso entre nós – e até apontei a uma saída para isso: o fim da TV aberta.

    Mas, “poder concedente” é o quê? Ora, se eu tenho o “poder concedente”, eu tenho o poder todo.

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