O que não se fala sobre Bogotá

Quando aconteceu uma manifestação contra as FARC em Bogotá, nossa mídia noticiou, é claro. Mas a passeata de quinta-feira passada, contra o governo de Álvaro Uribe, não mereceu nenhuma notinha nos jornais daqui. Entre os participantes estava até mesmo o prefeito da cidade, Samuel Moreno, do partido oposicionista Pólo Democrático Alternativo.

Bogotá também não é citada pela nossa mídia como uma cidade em que o poder público passou a valorizar mais as pessoas do que os carros, como mostra a postagem do blog Apocalipse Motorizado. Entendível: as empresas automobilísticas enchem os cofres das corporações de mídia graças aos anúncios em jornais e emissoras de rádio e televisão.

Na capital da Colômbia as ruas deixaram de ser simplesmente espaço de fluxo de veículos, e voltaram a ser ponto de encontro, como acontecia antigamente em Porto Alegre na Rua da Praia. Foram construídos muitos quilômetros de ciclovias pela cidade. Em muitas ruas o trânsito de carros foi proibido, e o movimento de pessoas – a pé ou de bicicleta – mantém-se alto. O que contribuiu para diminuir a violência: não foi o terrorismo de Estado praticado por Uribe que fez caírem os índices de criminalidade em Bogotá, mas sim a retomada das ruas pela população.

E conforme já falei em 20 de novembro de 2007, se muito carro na rua fosse segurança, o entorno da Redenção seria a área mais segura de Porto Alegre, já que os carros passam aos montes nas avenidas Osvaldo Aranha e João Pessoa – e o que acontece é o contrário, é preciso muita coragem para se arriscar a caminhar sozinho por ali durante a noite.

Leia mais sobre Bogotá no Apocalipse Motorizado, e assista ao documentário produzido sobre a cidade – o vídeo está em inglês, mas a tradução de alguns trechos está na postagem do Apocalipse.

Confira também uma entrevista (com legendas em português) com o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, que começou a implementar as mudanças na cidade. Em um trecho ele lembra: temos cidades desde aproximadamente 5 mil anos atrás, e carros há cerca de 80 anos, o que quer dizer que durante a maior parte do tempo as ruas das cidades eram feitas para as pessoas, e não para os carros como acontece atualmente.

Quem sabe não exigirmos do prefeito que elegeremos em outubro que comprometa-se a fazer de Porto Alegre uma cidade menos motorizada e mais humana?

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