Um dia vermelho

Nunca fiz “declaração de princípios”, mas se fizesse, dentre eles estaria a proibição do uso da cor vermelha nos textos do Cão Uivador. Este blog é gremista, e por conseqüência a cor do maior rival deve ser excluída.

Mas hoje é dia de abrir uma exceção. Em homenagem ao 7 de novembro de 1917: completam-se 90 anos da Revolução de Outubro¹. Pela primeira vez, uma revolução de inspiração marxista era vencedora.

Nesta postagem eu poderia simplesmente narrar os acontecimentos de 1917. Mas prefiro uma reflexão.

A Revolução Russa significou esperança a todas as pessoas que sonhavam com um mundo mais justo, pelo menos na época. Mesmo os anarquistas exaltaram a “epopéia bolchevique”. Até então, todas os movimentos revolucionários inspirados no marxismo haviam fracassado. Os bolcheviques provavam que uma revolução socialista vencedora não era uma utopia, podia ser realidade.

Marx defendia a revolução que instalaria a “ditadura do proletariado”, que seria apenas uma etapa que antecederia o verdadeiro comunismo: a extinção do Estado.

No dia 30 de dezembro de 1922, foi fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após a morte de Lenin (1924), a luta pelo poder na URSS entre Stalin e Trotsky não foi apenas pessoal: eram duas concepções de socialismo. Trotsky defendia a imediata exportação da Revolução, enquanto Stalin era favorável à consolidação do socialismo na URSS, para depois a Revolução acontecer em outros países.

A vitória de Stalin levou a União Soviética a uma ditadura que, embora ideologicamente oposta, em termos de crueldade foi comparável ao nazi-fascismo. Ao invés de se praticar uma transição ao comunismo, no qual não existiria mais Estado, sob Stalin houve um grande fortalecimento do Estado, mesmo antes da Segunda Guerra Mundial – quando os soviéticos precisaram lutar contra a invasão alemã, foi necessário construir um “sentimento nacional”, o que levou à criação de um hino nacional para a URSS em substituição à Internacional, até então o hino oficial.

Surgiu um Estado extremamente burocratizado, e que muitas vezes deixaria de apoiar movimentos revolucionários de caráter socialista por puro pragmatismo. O melhor exemplo é o acontecido com Cuba, durante a Guerra Fria: muitas vezes os soviéticos alertavam Fidel Castro de que a persistência da idéia – principalmente de Che – de “exportar a revolução” era desconfortável à URSS, que não poderia garantir a segurança de Cuba contra uma eventual invasão caso os cubanos seguissem “incomodando os Estados Unidos”. Àquela altura não interessava mais à URSS uma revolução mundial, e sim a consolidação de seu poder: tratava-se de um imperialismo, tal qual o dos EUA.

Com tudo isso, mais o fato da própria União Soviética ter desaparecido em 1991, pareceria sem sentido relembrar a Revolução de 1917?

Sinceramente, acho que não. O historiador Eric Hobsbawm (que coincidentemente nasceu em 1917) afirma que o “breve Século XX” durou de 1914 a 1991: começou com a Primeira Guerra Mundial – que foi um dos fatores deflagradores da Revolução – e terminou com a desintegração da URSS. Ou seja: em termos de História (o que é diferente de cronologia), pode-se dizer que a Revolução foi determinante para o Século XX. Daí a importância de relembrar a Revolução de 1917.

Assim como é importante não esquecer que foi graças ao triunfo da Revolução que em vários países os trabalhadores foram à luta e conquistaram alguns importantes direitos: o medo do comunismo fez com que os capitalistas cedessem em alguns pontos. Tanto que o auge das políticas neoliberais (privatizações e retirada de direitos trabalhistas) aconteceu após o fim da URSS: o capitalismo “não tinha mais adversários” naquele momento.

Mas mesmo assim, o “fantasma do comunismo” ainda assombra aos donos do poder… Por isso fazem questão de, através de seus porta-vozes (meios de comunicação de massa), criminalizarem movimentos sociais e demonizarem grandes personagens da História – como a Veja fez com o Che. Ou se apropriam de símbolos: nada mais capitalista do que um monte de gente que nem sabe quem foi Che Guevara utilizar uma camisa com sua imagem por “estar na moda”.

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¹ A Revolução de Outubro eclodiu na madrugada de 7 de novembro de 1917, mas esta data é a do calendário gregoriano (ocidental). Na Rússia, onde era utilizado o calendário juliano (da Igreja Ortodoxa), era o dia 25 de outubro. Do mesmo modo que a Revolução de Fevereiro (primeira fase da Revolução Russa, que derrubou o tzarismo e instalou um governo provisório de cunho liberal) eclodiu em 12 de março de 1917 pelo calendário gregoriano, 27 de fevereiro no juliano.

2 respostas em “Um dia vermelho

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