Lembranças de um dia 30 de agosto

Há 12 anos, o Grêmio conquistava a América pela segunda vez, ao empatar em 1 a 1 com o Nacional de Medellín, no estádio Atanásio Girardot, em Medellín, Colômbia. Aristizábal marcou o primeiro gol da inesquecível noite de 30 de agosto de 1995 para o Nacional, dando esperança ao time colombiano. Mas aos 40 do segundo tempo, Dinho, de pênalti, empatou para o Tricolor.

A narração do vídeo é do Galvão Bueno – é um compacto da transmissão do jogo pela Globo. Assim, fica de alerta: para não ouvir ele, é preciso desligar o som.

Para maiores lembranças, o texto que escrevi há dois anos atrás, na comemoração do 10º aniversário daquela conquista.

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Relatos de 10 anos atrás

30 de agosto de 1995, uma quarta-feira, ficará para sempre na minha memória. Foi, sem dúvida, um dos dias mais felizes da minha vida.

Depois de uns dias de calor intenso, superior a 30 graus – bem típico do nosso maluco inverno – a temperatura estava mais baixa. Eu tinha aulas à tarde, na volta do colégio para casa cheguei a colocar um moletom. Foi um dos poucos momentos do dia em que não aparecia a minha camisa tricolor.

Era impossível conter o nervosismo, já que dentro de algumas horas o Grêmio estaria em campo em Medellín, na Colômbia, para enfrentar o Nacional e lutar pelo seu segundo título da Libertadores. Se fazia de tudo para tentar levar uma “vida normal” naquele dia decisivo.

Eu, por exemplo, saí para jantar por volta das 19 horas. Meu avô (que era colorado) estava em Porto Alegre, então fui jantar com ele, meu pai (também colorado), meu irmão (colorado fanático) e minha mãe (que é gremista e me fez torcedor do Grêmio). Fomos à galeteria Mamma Mia, na Rua Gaspar Martins.

Saí de lá com a minha mãe e o meu irmão, mas antes de irmos para casa, resolvemos fazer uma visita rápida a nossos ex-vizinhos da Rua Pelotas. O primeiro que encontramos era colorado, que disse ser “Inter… Nacional”. Depois encontramos os gremistas, nervosos, ansiosos pelo início da partida. Ainda faltava cerca de meia hora para o jogo começar.

Logo que chegamos em casa, meu irmão foi dormir, tinha aula no dia seguinte. Além disso, eu não queria saber de secador por perto durante o jogo.

E a partida começou. A primeira chance foi do Grêmio: numa falha grotesca do zagueiro Marulanda, do Nacional (o mesmo que marcou um gol contra na vitória tricolor de 3 a 1 no Olímpico, no primeiro jogo da final), Jardel pegou a bola e ficou cara a cara com Higuita. “Vai fazer, vai fazer!”, pensei e torci. Mas não fez: ruim com a bola no pé, Jardel mandou a bola na arquibancada…

Aos 12 minutos de jogo, gol do Nacional, 1 a 0, explosão de alegria no estádio em Medellín, pânico para os gremistas lá presentes e para os milhões que, como eu, acompanhavam o jogo pela TV. O 1 a 0 ainda servia para o Grêmio, mas se o Nacional fizesse 2 a 0, a decisão iria para os pênaltis. Seria necessária muita raça dali em diante, para agüentar a pressão colombiana.

No final do primeiro tempo, o Grêmio teve uma boa chance com Paulo Nunes, mas Higuita defendeu. O intervalo não me trouxe tranqüilidade, minha mãe me fez tomar um copo de água com açúcar para me acalmar. Ainda restavam 45 minutos de jogo, era tempo demais.

O segundo tempo começou semelhante ao primeiro: apenas o Nacional no ataque, o Grêmio se segurando lá atrás, do jeito que dava. À medida que o tempo passava, o nervosismo, ao invés de diminuir, aumentava: se o Grêmio levasse outro gol, teria menos tempo para fazer o seu…

Até que aos 40 minutos do segundo tempo, Nildo fez lançamento para Alexandre, que penetrou na área e foi derrubado. O árbitro chileno Salvador Imperatore não pensou duas vezes e apontou: pênalti!

Dinho pegou a bola para cobrar a penalidade. Eu sentia alívio e nervosismo ao mesmo tempo. Se Dinho convertesse, a taça era nossa. Agora, se ele errasse… Eu nem queria pensar nessa possibilidade.

Dinho bateu a bola à direita de Higuita, e o colombiano, já caído para a esquerda, não tinha o que fazer. Gol!

Mas a partida ainda não havia acabado. Ainda deu tempo de Goiano cometer uma falta violenta, um carrinho num colombiano, e ser expulso, depois de quase acontecer uma briga. Mas àquela altura, não era problema. Já passávamos dos 45 do segundo tempo.

E veio o alívio, e ainda mais, a alegria, com o apito final. Grêmio, de novo, Campeão da Libertadores! Pulei, apesar de morar no segundo andar do prédio: quem conseguia dormir com tanto foguete estourando?

No dia seguinte, acordei com dor de barriga. Alguma coisa que comi no Mamma Mia deve ter feito mal… Mas eu nem me sentia mal! Assim que levantei, liguei o rádio, a toda hora tocavam a música do Bi da América, e repetiam a narração do gol do Dinho.

Depois do almoço, coloquei a camisa do Grêmio, e fui para a aula. Mas ao chegar ao colégio, surpresa: todo mundo estava saindo. “Liberaram a gente para ver o Grêmio passar na Farrapos!”, diziam. Uma decisão que agradou a todos: os colorados estavam felizes por não terem aula.

Quase não cabia gente na Avenida Farrapos naquela tarde de 31 de agosto de 1995. As paradas do corredor de ônibus estavam tomadas. Parecia que a cidade toda (ou pouco mais da metade dela, para ser imparcial) estava ali.

Foi uma festa inesquecível. Nem parece que já fazem 10 anos. E vendo o Grêmio atual, confesso: que saudade!

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