Fábrica de besteiras

Pensei em escrever algo sobre o “Cansei” (que vai demonstrar seu “cansaço” hoje). Ou sobre a tão aguardada estréia do filme dos Simpsons. Mas preferi falar sobre futebol, pois sobre os “cansados” a mídia já fala bastante, e não vou ver o filme dos Simpsons hoje porque sexta-feira (assim como sábado, domingo e feriado) o ingresso de cinema é mais caro.

O valoroso co-irmão do Grêmio não é um clube de futebol. É uma indústria. Seu principal produto é a besteira.

Há um ano atrás o Internacional conquistou, com merecimento (que tristeza escrever tal palavra!), a Taça Libertadores da América. Com direito a receber um inacreditável (pois quem entende de inacreditável é gremista!) cumprimento deste blogueiro que é radicalmente gremista e anti-colorado. Cumprimentei todos os colorados que encontrei, que ficaram surpresos com minha cordialidade.

Bom, tal cordialidade se explicava pelo fato do Inter ter uma Libertadores e o Grêmio duas. E ainda faltava ao Inter o Mundial. Que foi conquistado em dezembro, com uma vitória (que merda!) justa sobre o Barcelona. Aí sim, de certo modo, eu fiquei abalado. Afinal, em Porto Alegre não era mais só o Grêmio que tinha ganho o Mundial. A conquista do Inter, somada ao calor apocalíptico daquele domingo, deu a impressão de que o fim do mundo se antecipara em seis anos e cinco dias*: afinal, “Inter Campeão do Mundo”, que até um dia antes era uma excelente piada, passava a não ser algo tão engraçado.

Não consegui cumprimentar um colorado sequer, mas procurei lembrá-los de que ainda não haviam nos ultrapassado, visto que o Grêmio tem duas Libertadores. Então eles soltaram a besteira: “o nosso título é da FIFA”. Obviamente que diziam isto apenas para tentar diminuir a conquista do Grêmio de 1983. Mas com esta tosquice, os colorados se distanciavam de clubes consagrados mundialmente (além do Grêmio, é claro!) como Boca Juniors, Independiente, Santos, Flamengo, Milan, Juventus, Real Madrid, e se uniam ao Corinthians (que nunca chegou sequer a uma final de Libertadores!). Do São Paulo posso dizer que o Inter distanciava-se de “dois terços” (1992-1993) do Tricolor paulista e aproximava-se do “terço” vencedor de 2005, quando o time do São Paulo que encheu os olhos dos amantes do futebol foi justamente o de 1992-1993 (cujas taças mundiais nada valem na “mentalidade FIFA” colorada). Sem contar que o futebol já era jogado antes de 2000, tanto que a própria FIFA colocou na sua galeria os vencedores do Mundial nos antigos moldes. E ao invés de tentar acabar com a disputa no Japão, decidiu que ela é válida, mantendo o Mundial no Japão e o patrocínio da Toyota, apenas aumentando o número de clubes participantes (quando até a grama do estádio de Yokohama sabe que a final deste ano será entre Boca e Milan) e adicionando a marca** FIFA.

Eu não tentei diminuir a conquista do Mundial pelo Inter. Como “a justiça tarda mas não falha” (se bem que eu nem acredito muito nesta frase), cumprimento os colorados com oito meses de atraso. E recomendo-lhes que estudem mais a História do Futebol: o Inter é superior ao Barcelona (que nunca foi Campeão do Mundo mas foi ao Japão por ter vencido a Liga dos Campeões da Europa, do mesmo jeito que o Hamburgo em 1983, que os colorados desprezam esquecendo que era um belo time e havia derrotado a poderosa Juventus com Platini e tudo na final européia), enquanto o Corinthians (considerado como “igual” pelo Inter) não sabe o que é final de Libertadores e só foi “Campeão do Mundo” por ter sido convidado. Mas superior ao Grêmio, o Inter não é: está uma Libertadores atrás.

* De acordo com as profecias maias, o mundo acabará em 22 de dezembro de 2012.

** O fato da FIFA ter determinado que o Inter retirasse a marca “FIFA” do letreiro prova que ela é uma empresa com fins lucrativos (igual à Toyota que os colorados tanto desprezam) e não uma entidade cujo objetivo é organizar o futebol mundial.

———-

Este texto já podia ter acabado, o problema é que os colorados se puxaram e fabricaram outra besteira.

Além do “Campeão do Mundo FIFA” (que acabou voltando-se contra os colorados, já que a pífia campanha colorada em 2007 fez com que nós gremistas criássemos o deboche “Campeão do Mundo PIFA”), eles inventaram mais uma tosquice: a “Tríplice Coroa”.

No último mês de junho, o Inter, que foi eliminado na primeira fase da Libertadores e, pasmem, do Campeonato Gaúcho, conquistou a Recopa Sul-Americana (que o Grêmio também já ganhou, em 1996) derrotando o Pachuca, do México, vencedor da Copa Sul-Americana de 2006. O time mexicano veio a Porto Alegre em ritmo de férias, feliz por uma conquista considerada mais importante, o Campeonato Mexicano. Os jogadores estavam mais preocupados em fazer compras e balbúrdia no hotel do que em jogar futebol. O Inter havia perdido a primeira partida, no México, por 2 a 1, mas em Porto Alegre fez 4 a 0 e conquistou o título.

E aí começou a onda de “Tríplice Coroa”, uma bela jogada do departamento de marketing colorado. O São Paulo também tem esta “façanha” (Libertadores e Mundial em 1993, Recopa em 1994), mas eu nunca vi um são-paulino se vangloriar dela. O próprio Grêmio também conquistou três títulos internacionais no período de um ano: em 1983 venceu Libertadores, Mundial e Copa Inter-Americana (contra o América do México, dois dias após a conquista do Mundial). E nunca o Grêmio falou em “Tríplice Coroa de 1983”!

E o critério varia muito. Em 2003, o Cruzeiro ganhou o Campeonato Mineiro, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro, e considerou-se detentor da “Tríplice Coroa” (a ponto de colocar uma coroa sobre seu escudo).

E eu próprio posso me considerar “tríplice coroado”! Afinal, em 1992 ganhei três campeonatos de botão! Se não fosse o Inter, jamais teria feito tão importante descoberta…

Anúncios

2 comentários sobre “Fábrica de besteiras

  1. A CBF também inventou uma tríplice coroa, em 2002 ou 2003: campeão do mundo profissional, sub-20 e sub-17.

  2. O mais legal de tudo é como ficou o escudo deles!

    E vai ficar assim por um ano…
    eheheheheehh

Os comentários estão desativados.