O alívio só após o apito final

A vaga do Grêmio nas semifinais da Libertadores de 1995 estava praticamente assegurada. Afinal, era impossível (ou melhor, parecia impossível) o Palmeiras conseguir reverter a grande vantagem tricolor construída uma semana antes, numa histórica vitória de 5 a 0 no Olímpico. Quando a bola rolou na noite de 2 de agosto de 1995 no Parque Antártica, nenhum gremista imaginava que os próximos 90 minutos seriam dos mais angustiantes da história do Grêmio. E os palmeirenses que foram ao estádio mesmo numa situação amplamente desfavorável a seu time, tiveram o privilégio de assistir a um jogo sensacional, no qual o Palmeiras quase conseguiu o que seria considerado um milagre.

Os dois times estavam desfalcados por suspensões devido à briga generalizada da semana anterior. O Palmeiras não tinha Rivaldo e Válber, e o Grêmio perdera Dinho e também Danrlei, que fora suspenso com base em imagens da televisão, já que o árbitro não vira a agressão de Danrlei a Válber na briga. Murilo seria o goleiro naquela noite.

Havia sido criado um clima de guerra para aquela partida, conseqüência da pancadaria de Porto Alegre, e também em decorrência da grande desvantagem do Palmeiras, que na prática entrava em campo perdendo por 5 a 0. O Grêmio poderia perder por até 4 gols de diferença para se classificar às semifinais.

Logo, o Grêmio começou jogando com extrema tranqüilidade, que aumentou já aos 8 minutos de partida, quando Jardel fez o primeiro gol da noite. “Já era!”, pensei. O Palmeiras poderia empatar, até virar o jogo. Mas precisaria fazer 6 a 1 para levar a decisão aos pênaltis, e 7 a 1 para se classificar. O Grêmio, com o gol de Jardel, poderia levar 5 que se classificaria. Os gremistas otimistas, como eu, pensaram até mesmo em uma nova goleada, pois o Palmeiras teria de partir para cima de qualquer jeito, e se abriria na defesa, permitindo os contra-ataques tricolores.

Mas não foi o que aconteceu. O Palmeiras partiu para cima, abriu espaços, mas o Grêmio não conseguiu fazer mais nenhum gol. Quem fez gols foi o Palmeiras.

O empate alvi-verde chegou aos 29 minutos do primeiro tempo, com Cafu. Aos 39, Amaral virou para 2 a 1. Eu continuei tranqüilo no intervalo.

Aos 13 minutos do segundo tempo, Paulo Isidoro fez 3 a 1 para o Palmeiras. Pensei: “o Grêmio tá jogando mal, deixando o Palmeiras fazer gols, mas não vai perder a vaga, agora vai acordar”. Que nada! Aos 24 minutos, pênalti para o Palmeiras, convertido por Mancuso: 4 a 1. A partir daí, comecei a me preocupar. Afinal, o Palmeiras precisava de mais 2 gols para levar a decisão aos pênaltis, e tinha bastante tempo. Depois de ter feito um gol aos 13 e outro aos 24 do segundo tempo, ou seja, em um intervalo de 11 minutos, os cerca de 20 minutos restantes eram uma eternidade para os gremistas.

Minha preocupação se transformou em pânico aos 39 minutos, quando Cafu fez 5 a 1 para o Palmeiras. O time alvi-verde precisava de apenas mais um gol para levar a decisão aos pênaltis.

Restavam poucos minutos. Mas para os gremistas, passaram como se fossem uma, duas, três partidas inteiras. Foram os poucos minutos mais longos da história do Grêmio.

Quando o juiz soprou o apito final, tive uma das maiores sensações de alívio da minha vida. Parecia incrível que uma classificação tão fácil tivesse se tornado tão dramática. Por pouco o Grêmio não entregara o ouro para o Palmeiras. “Desse jeito, o Grêmio não ganha a Libertadores de jeito nenhum!”, pensei irritado com a atuação do time.

Mas fui conhecendo melhor a história do Grêmio e descobri: nunca o Grêmio teve moleza! O torcedor gremista se acostumou com isso. Não a “sofrer” (pois isso é coisa de colorado, que só uma vez na vida comemora título importante), mas sim, a se “angustiar”. Todas as grandes conquistas do Grêmio tiveram alguma dramaticidade. Afinal, se fosse fácil, não teria graça!

Hoje posso dizer que o título da Libertadores de 1995 veio graças a essa angústia contra o Palmeiras. Depois de quase perder a vaga na semifinal, o Grêmio percebeu que não podia calçar salto alto. Por isso, foi campeão.

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2 respostas em “O alívio só após o apito final

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