Lembranças de um clássico

O semestre na faculdade ainda não terminou – resta entregar apenas um trabalho – porém a cadeira mais legal não só deste, mas de todos os semestres até agora, acabou ontem: o seminário sobre História Social do Futebol no Brasil. Como confessou nosso professor Cezar Guazzelli, um dos objetivos que ele tinha para a disciplina era “se divertir”, que foi alcançado. Eu também me matriculei pensando nisto, e minha expectativa foi correspondida. Meu único lamento em relação à cadeira era quanto ao horário: quarta-feira à noite, o que me levou a faltar três vezes às aulas para ir aos jogos decisivos do Grêmio na Libertadores – o que não deixava de ter uma justificativa, nestes dias eu não ia à “aula teórica”, mas sim à “aula prática”…

Mas a cadeira não foi só “diversão”, pois tínhamos de escrever uma monografia final. Meu tema foi a “Torcida Gre-Nal” em 1967 (em breve tem postagem), e digo: se não foi o melhor trabalho que escrevi, foi sem dúvida o que senti mais satisfação em fazer. No fim, mesmo esta tarefa “obrigatória” não deixou de ser “divertida”.

A última aula foi uma mesa-redonda sobre futebol e regionalismo no Brasil. Porém, a discussão não se limitou a temas como “Ah, eu sou gaúcho!” e coisas do gênero. Falamos também sobre as rivalidades no mundo da bola (qual seria a graça de ser gremista se não existissem os colorados para eu tirar sarro da cara deles?), que não se limitam apenas aos grandes clubes. O professor Arlei Sander Damo, cuja dissertação de mestrado em Antropologia teve como tema a torcida do Grêmio, lembrou que estudos sobre rivalidades podem ser feitos em diversos futebóis, até mesmo no escolar (quando eu estava na 7ª série, em 1995, minha turma 72 não chegou a enfrentar a 71 no campeonato do colégio, mas imagino a pancadaria que seria…). Isso me fez lembrar de uma outra rivalidade, que se acabou, se perdeu no tempo.

Na década de 1990, existia uma grande rixa futebolística no Bairro Floresta, entre as ruas Pelotas (onde eu morava) e São Carlos. Esta rivalidade se dava apenas na bola, entre as crianças. Mas cada jogo Pelotas x São Carlos era uma verdadeira guerra. Eram comuns os desentendimentos. Pois o que estava em jogo não era uma simples partida de futebol, era a “honra” da rua. E havia a importância do local do jogo, se era “em casa” ou “no campo (!) do adversário”…

Os “clássicos” Pelotas x São Carlos ficaram apenas na memória. Pois hoje em dia a bola não rola naquelas ruas. Além das grades terem tomado conta das casas, o medo da violência (que já existia nos anos 90, mas não tinha toda essa paranóia dos dias atuais) e as novas maneiras de diversão (como o videogame) acabaram com o futebol das ruas.

Como não moro mais perto da Pelotas desde 1997, acabei me afastando um pouco da rua, mas todos os anos, em setembro, é garantido que eu passe por ela: tem Torneio Farroupilha de botão (onde há outra rivalidade, entre meu irmão e eu), e assim retorno ao lugar onde cresci. E não vejo uma criança brincando na rua, nem mesmo aos domingos. Percebo isto já faz tempo. Esta mudança – para pior – se deu em menos de dez anos.

2 respostas em “Lembranças de um clássico

  1. Na minha infância a gente fazia o clássico mundial Impéria x San Remo, reunindo a nata dos jovens jogadores dos dois prédios que mais se rivalizavam no condomínio…

  2. Na minha era GJ (Gomes Jardim) x VP (Veador Porto).

    Muito bala o post.

    Vou querer ler o trabalho.

    Abraços apreensivos de um Gremista temendo o caBritto…

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