Quem não tem virtude acaba por ser escravo

Quem se deixa influenciar pela mídia comercial, em junho gasta dinheiro ou sofre. Afinal, a “data mais romântica do ano” não pode passar em branco. A não ser para quem tenha personalidade independente e não dê a menor importância para estas comemorações inventadas com o objetivo de encher de grana os bolsos dos lojistas – estes sim podem dizer “feliz Natal”, “feliz dia das mães”, “feliz dia dos namorados” etc.

Eu dou risada ao ler que os centros de compras estão cheios de casais querendo comprar presentes. Pobres escravos do capitalismo, acham que são românticos… Aliás, telefone celular é o símbolo do romantismo: é o produto mais vendido nessa época. É simples entender: você compra um celular para você (e um para seu “amor”), com uma promoção de ligação para seu “amor” por um centavo o minuto – ótimo para ficar fazendo aquelas baboseiras de “desliga você”, “não, desliga você”, e por aí vai. Aí o namoro acaba – coisa mais natural que existe –, arruma-se outro “amor” e o celular precisa ser trocado.

Já sei o que fazer para ganhar dinheiro! Vou criar uma operadora de telefonia móvel, a Celular Uivador, cuja abreviatura – para facilitar a difusão da marca – será CU. E no “dia dos namorados” de 2008, os pombinhos poderão comprar um CU com uma promoção única: um centavo por dez minutos de fala. Ótimo para ficar uma hora dizendo “desliga você”, “não, desliga você” e também para fritar o cérebro – os clientes pensarão menos e comprarão mais celulares da CU, seduzidos pela publicidade.

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Agora, falando sério – se é que é possível falar sério quando se quer debochar. Uma das características do capitalismo é transformar tudo em mercadoria. O mundo anda tão mercadológico que, não demora muito, o metano será privatizado e teremos de pagar royalties a cada peido que soltarmos – bom, “privatização” e “merda” combinam, já que ambas são feitas na “privada”…

Quase tudo se tornou mercadoria. Até o amor. Quem namora e não dá presentes merece levar pé na bunda. Romantismo? Realmente, morreu no século XIX.

Pensando bem, namorar para quê? Hoje em dia o que mais vale não é o sentimento, e sim a aparência. Namora-se não pelo amor, e sim “para não ficar sozinho” – além dos presentes, é óbvio! O que me faz imediatamente lembrar da ótima crônica que li no Cataclisma 14. A máxima “antes só do que mal-acompanhado” se inverteu.

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O título deste post é baseado num verso do Hino Rio-Grandense, que diz “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”. Não só os povos, mas também as pessoas que não têm virtudes se tornam escravas.

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E em 2008, não esqueçam: comprem um CU no “dia dos namorados”!

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4 respostas em “Quem não tem virtude acaba por ser escravo

  1. Pingback: Vamos comer pipoca? « Cão Uivador

  2. Essa frase do belíssimo Hino Riograndense tem efeito muito bonito, mas é extremamente RACISTA. Quando foi feita os escravos negros (povo africano) eram considerados sem virtudes, sem valores. A escravidão reside na PREPOTÊNCIA, na TIRANIA, na GANÂNCIA dos dominadores e seu potencial bélico ou de maldades. O POVO AFRICANO, como todos os povos escravisados (Hebreus, por exemplo) possuem grandes virtudes e principalmente muita pureza na alma. Já tentaram mudar por lei, mas não conseguiram, porque não encontraram frase que mantivesse a rima. No entanto eu encontrei. Basta trocar “ACABA POR SER ESCRAVO” por ‘PERMANECE PRA SEMPRE ESCRAVO”. Assim quem tem virtudes não perca a esperança, um dia deixarás de ser escravo, individual ou coletivamente, dos vícios sociais, ou de sistemas autoritários.

  3. É uma boa idéia essa alteração, João Renato.
    Há uns tempos atrás – depois de postar este texto – já andei pensando nisso, já que os Farrapos não eram tão abolicionistas como diz a História oficial…

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