A nossa indiferença

O 29 de outubro de 2006 foi um dia diferente. Não só por ter sido dia de eleição (fui de Lula presidente e Olívio governador, que infelizmente perdeu), mas também por eu ter feito algo que muito raramente faço: assistir ao Fantástico. Claro que não assisti todo o programa (já seria pedir demais!), mas durante a parte que assisti, o que mais me chamou a atenção foi uma reportagem sobre ética, apresentada por uma professora de Filosofia cujo nome, infelizmente, esqueci.

Afinal, o que é ética? O que é ser “anti-ético”? Segundo a professora, uma atitude de indiferença é anti-ética. Indiferença quanto aos problemas sociais, à violência, à corrupção etc. Mostrou como exemplo de indiferença uma chocante foto que foi publicada, se não me engano, no jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Era um grupo de turistas sorridentes, enquanto próximo a eles, encontrava-se um homem coberto por uma lona. Morto. E outras fotos tiradas no mesmo lugar mostram pessoas igualmente indiferentes ao corpo estendido no chão.

Chocante? Sim. Mas é uma surpresa que isso provoque choque nos brasileiros. Pois a indiferença é a cara do Brasil. Nos acostumamos com nossos problemas ao invés de pelo menos tentar resolvê-los.

O medo de ser assaltado ao sair às ruas, ao invés de nos indignar, passou a fazer parte do dia-a-dia. “Não vai a tal lugar tal hora porque você pode ser assaltado”, e assim deixamos de ir a muitos lugares por medo da violência. O melhor exemplo é o morro Santa Tereza, aqui em Porto Alegre, de onde se tem uma belíssima vista panorâmica da cidade. Faz muito tempo que eu não vou lá. Por medo de ser assaltado. A violência, que não deveria ser regra, acaba tornando-se uma, já que altera nossos hábitos.

E a miséria? Não nos sentimos revoltados ao ver pessoas mendigando pelas ruas, dormindo ao relento em uma noite gelada. Não nos questionamos por que isto acontece, se por acaso não temos também um pouco de responsabilidade por isto. E não é nem por questão de eleger esse ou aquele cara para o governo. Cada vez mais vemos gente gastando uma grana em segurança: carros blindados, cercas eletrificadas, grades de cinco metros de altura (ou mais), guaritas, vigias etc. Por medo dos “bandidos”, que são aquelas pessoas miseráveis que cansaram de esmolar e resolveram arriscar tudo o que têm (que é apenas a sua vida, uma vida terrível, de fome, frio e privações). Em geral quem tem dinheiro é indiferente aos problemas dos mais pobres, se preocupando apenas em ostentar o que tem, e em ter mais. E quer que os pobres o “respeitem” e trabalhem se quiserem melhorar de vida. Aí me lembro de perguntar: afinal, existe alguma pessoa que tenha deixado de ser pobre e tornado-se rica apenas trabalhando? Não teve nenhum esquema, nenhuma loteria no caminho que levou a tal pessoa da pobreza à riqueza? Pois ganhar na Mega-Sena ou na Loteca não é trabalho, é sorte.

Os pobres também querem ter um carro, uma casa que não voe com o vento ou não seja arrastada pela enchente, roupas novas, tênis bons. Enquanto eles têm a ilusão de que trabalhando bastante poderão um dia ter uma vida melhor, não se revoltam. Mas alguns perdem esta esperança, e resolvem arriscar suas vidas sofridas para poderem ter o que tanto vêem na televisão. Acaba de surgir mais um “bandido”.

Não adianta reclamarmos dos políticos porque os caras roubam: somos nós quem os elegemos. É muito fácil colocar a culpa neles, quando muitas vezes a culpa é nossa. Não adianta querermos uma sociedade mais justa enquanto nós mesmo fomentarmos a injustiça. Se tudo que se gasta em segurança privada no Brasil fosse investido em educação pública de qualidade, talvez estes gastos com câmeras, cercas eletrificadas, guaritas, grades e vigias não fossem necessários.

Anúncios