É muito bom ser gremista

15 de dezembro de 1996. Decisão do Campeonato Brasileiro. O Grêmio vencia a Portuguesa por 1 a 0, mas não era o suficiente. Faltava mais um gol. E não parecia que ele ia sair: a Lusa não só se fechava toda na defesa, como levava algum perigo nos contra-ataques.

Então, Felipão chamou Aílton para o jogo. A torcida só não vaiou porque era final do Brasileirão, não era hora de cornetear (e, sinceramente, enquanto a bola rola nunca é hora de cornetear). De repente passou pela minha cabeça um pensamento (sério, não estou inventando isso): “o Aílton vai fazer o gol do título”.

Tinha ido ao jogo junto com a minha mãe, o Diego e mais amigos. Pouco depois que Aílton entrou, minha mãe se virou pra mim e disse: “vamos embora”. E eu na hora respondi: “nem pensar, ainda tem bastante tempo”.

Como vocês percebem, minha boca foi “santa”…

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16 de julho de 2006. Contra o Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro, o Grêmio jogava sua primeira partida no Olímpico após a Copa do Mundo da Alemanha. Saiu na frente, chegando a abrir 2 a 0 aos 22 minutos do segundo tempo. Mas permitiu a virada do Flu: 4 a 2.

Indignado, meu amigo Marcel propôs que fôssemos embora. Eu, que não estava menos furioso, aceitei a sugestão, e deixamos o Olímpico antes do apito final. Graças a isso, perdemos os gols de Herrera e Rômulo, marcados nos acréscimos, que decretaram o empate em 4 a 4.

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Depois dos exemplos de 1996 e 2006, é claro que eu não deixaria o Olímpico antes do apito final…

Mas não podemos nos iludir: o Grêmio jogou muito mal, e só conseguiu empatar graças ao próprio Caxias, que no segundo tempo decidiu não jogar mais futebol. Tivesse jogado, ao invés de fazer cera, o árbitro não teria dado oito minutos de acréscimo (e foi pouco, poderiam ter sido mais de dez), e consequentemente o título do primeiro turno do Gauchão iria para Caxias do Sul.

Mesmo assim, digo: é muito bom ser gremista!

Meia década

É… Lá se vão cinco anos daquela tarde quente. Maluca. Inesquecível.

26 de novembro de 2005. Milhões de gremistas estavam angustiados diante da televisão. Pênalti contra, sete jogadores contra onze do Náutico, que jogava em casa. Levar o gol significava “morte”, não levá-lo apenas adiaria o inevitável. Afinal, como já foi dito, eram sete gremistas contra onze que ainda por cima tinha mais de 20 mil torcedores a seu favor.

Porém, os sete que enfrentavam onze mais 20 e poucos mil torcedores não vestiam uma camisa qualquer. Era a camisa do GRÊMIO. Não iriam perder o jogo. Não poderiam perder daquele jeito.

E não perderam. Não empataram. GANHARAM.

GANHAMOS, todos nós gremistas, uma lição de vida: a prova de que, realmente, nada é impossível.

Um jogo inesquecível que merece, sim, ser lembrado para sempre.

Porém, é preciso fazer uma ressalva. A Batalha dos Aflitos é uma lição de vida para nós torcedores, porque achávamos que estava tudo perdido. Mas não pode, de forma alguma, ser uma lição de futebol. Tanto que “assino embaixo” dos textos escritos pelo Bruno no Grêmio 1903 e pelo Natusch no Carta na Manga (esse, é do ano passado).

Afinal, o Grêmio só precisou disputar aquele jogo por ter sido incompetente um ano antes, ao não conseguir se manter na Série A. Ou seja, mesmo que tenha sido uma lição de vida, certamente todo gremista preferiria jamais tê-lo disputado. E a dramaticidade se deveu a uma série de fatores:

  • O Grêmio deixou de garantir a vaga antecipadamente por conta de dois jogos contra a Portuguesa: em São Paulo, a partida estava ganha, e acabou 1 a 1; no Olímpico, o 2 a 2 teve sabor de vitória, depois de derrota parcial por 2 a 0 no primeiro tempo. Se tivesse vencido apenas um deles, teria ido aos Aflitos já garantido na Série A;
  • Escalona foi corretamente expulso (sim, foi mão na bola e não bola na mão);
  • O árbitro Djalma Beltrami não “roubou” ao dar aquele pênalti inexistente de Nunes (ali foi bola no braço, e não braço na bola), ele “compensou” um erro cometido minutos antes, quando não marcou a penalidade cometida por Galatto sobre o atacante alvi-rubro Miltinho;
  • Com todos os jogadores partindo para cima do árbitro após a marcação do pênalti (como se ele fosse voltar atrás), tivemos sorte dele ter expulsado apenas Patrício, Nunes e Domingos – além de Escalona, que já levara o vermelho: mais um, o jogo acabaria e o Grêmio certamente perderia no STJD;
  • Se dependesse da vontade de muitos dirigentes e torcedores gremistas naquela hora (inclusive a minha), não teria acontecido nada daquilo que nos emociona só de lembrar, pois o Grêmio teria abandonado o jogo para impedir que o pênalti fosse cobrado, o que resultaria em derrota por WO e possivelmente uma punição por parte da CBF, que levaria o Tricolor para a Série C. Temos de agradecer (e muito!) a Renato Moreira, que alertou o presidente Paulo Odone sobre isso.

Sem contar que aquele jogo deixou mal-acostumados muitos gremistas – principalmente os mais novos, que não viram os grandes times do passado – que chegam ao ponto de achar que basta ter garra para conquistar títulos. Ora, se desde 2005 o que o Grêmio ganhou foram apenas três estaduais (2006, 2007 e 2010), é sinal de que não basta garra, é preciso qualidade técnica: pois foi isso que faltou na Libertadores de 2007 (aquele time foi sem dúvida um dos mais raçudos que já vi, mas fraco) e também no Campeonato Brasileiro de 2008.

Mesmo que o Grêmio tenha tradição de jogadores raçudos, não podemos esquecer que a qualidade técnica também teve muita importância nas grandes conquistas do Tricolor. Foram lances de puro talento de Renato Portaluppi que nos levaram ao título mundial de 1983; Dinho, o “cangaceiro gremista” de 1995-1997, sabia desarmar adversários sem fazer falta; se Jardel não sabia jogar com o pé mas fazia muitos gols, isso se devia à grande qualidade dos cruzamentos de Arce, Roger e Paulo Nunes, fundamentais para levantarmos a Libertadores de 1995; na atualidade, como negar a importância de Douglas na reação do Grêmio neste Brasileirão?

E podemos até voltar à Batalha dos Aflitos. Ganhamos o jogo “na raça”, mas também graças ao talento de Anderson – que chamamos de “Andershow” justamente por conta disso.

Cão no Olímpico em 2008

Ano passado, publiquei as “estatísticas” de minhas idas ao Estádio Olímpico Monumental para ver o Grêmio jogar. Aquela vez, eu já havia ido a 147 jogos, com 84 vitórias, 36 empates e 27 derrotas. Haviam sido marcados 401 gols: 263 do Grêmio e 138 dos adversários.

Agora, atualizo a publicação da estatística. Terminei 2007 com 16 jogos: 10 vitórias, 3 empates e 3 derrotas; 31 gols do Grêmio e 15 dos adversários.

Já em 2008, estive 17 vezes no Olímpico. Foram 13 vitórias gremistas, 3 empates e apenas uma derrota. O Tricolor fez 35 gols e sofreu apenas 10 – “melhor defesa anual” que já assisti no estádio, média de 0,59 por partida.

Fui aos seguintes jogos no ano que se acaba:

  1. Grêmio 2 x 0 Novo Hamburgo (Gauchão, 9 de fevereiro);
  2. Grêmio 6 x 0 Jaciara (Copa do Brasil, 27 de fevereiro);
  3. Grêmio 4 x 0 Ulbra (Gauchão, 1º de março);
  4. Grêmio 2 x 3 Juventude (Gauchão, 6 de abril);
  5. Grêmio 3 x 0 Atlético-PR (Brasileirão, 22 de junho);
  6. Grêmio 1 x 1 Inter (Brasileirão, 29 de junho);
  7. Grêmio 2 x 1 Portuguesa (Brasileirão, 13 de julho);
  8. Grêmio 1 x 0 Cruzeiro (Brasileirão, 19 de julho);
  9. Grêmio 1 x 1 Palmeiras (Brasileirão, 27 de julho);
  10. Grêmio 2 x 0 Vitória (Brasileirão, 3 de agosto);
  11. Grêmio 1 x 0 São Paulo (Brasileirão, 17 de agosto);
  12. Grêmio 2 x 1 Vasco (Brasileirão, 31 de agosto);
  13. Grêmio 2 x 1 Botafogo (Brasileirão, 4 de outubro);
  14. Grêmio 1 x 0 Sport (Brasileirão, 23 de outubro);
  15. Grêmio 1 x 1 Figueirense (Brasileirão, 2 de novembro);
  16. Grêmio 2 x 1 Coritiba (Brasileirão, 16 de novembro);
  17. Grêmio 2 x 0 Atlético-MG (Brasileirão, 7 de dezembro).

Não fui aos dois primeiros jogos do ano no Olímpico (pelo Gauchão, dias 19 e 26 de janeiro contra 15 de Novembro e Santa Cruz, respectivamente) ora por ter compromisso, ora por não estar em Porto Alegre. Mas pelo Gauchão, confesso que não costumo ser muito assíduo, dada a qualidade dos jogos.

Após a eliminação do Gauchão passei dois meses sem ir ao estádio. Não foi por revolta contra o time. No dia 9 de abril (eliminação da Copa do Brasil contra o Atlético-GO), eu tinha aula. Em 18 de maio optei por ir à Redenção (e me arrependi profundamente disso, por motivos “extra-campo”) ao invés de ver o Grêmio empatar em 0 a 0 com o Flamengo, pelo Brasileirão. No sábado seguinte, 24 de maio, não assisti à vitória de 2 a 0 sobre o Náutico para ir a um aniversário. No dia 8 de junho (Grêmio 2 x 1 Fluminense) o tempo estava muito úmido (já chovera bastante pela manhã) e eu estava com um forte resfriado.

Dali em diante, faltei a poucos jogos. Em três deles (Grêmio 1 x 0 Ipatinga, dia 6 de agosto; o Gre-Nal da Sul-Americana que acabou empatado em 2 a 2 no dia 28 de agosto; e Grêmio 2 x 0 Santos, em 8 de outubro) eu tinha aula no mesmo horário. No dia 13 de setembro (única derrota do Grêmio em casa pelo Brasileirão, 2 a 1 para o Goiás), eu tinha um aniversário para ir.

No total, já fui 167 vezes ao Olímpico. Foram 98 vitórias do Grêmio, 40 empates e 29 derrotas. Foram marcados 458 gols: 304 do Tricolor e 154 dos adversários.

O maior jogo da minha vida

Grêmio x Portuguesa, final do Campeonato Brasileiro de 1996, foi o jogo mais emocionante de todos os que já fui. Simplesmente inesquecível. Fui ao Olímpico junto com várias pessoas, entre elas minha mãe e meu amigo Diego.

Como hoje, quem decidia o horário dos jogos era a televisão. E naqueles tempos, a moda era passar os jogos mais importantes do domingo para as 19 horas. Foi exatamente o que aconteceu naquele 15 de dezembro de 1996.

Cheguei ao Olímpico por volta das 15 horas, e as filas já eram quilométricas. Esperei por cerca de uma hora debaixo de um sol inclemente. Quando entrei, o estádio já estava quase lotado. Isso que faltavam três horas para começar a partida!

Como havia sido derrotado por 2 a 0 em São Paulo, na partida de ida, o Tricolor precisava fazer 2 a 0 na Portuguesa para ser campeão. Os gremistas sabiam que não seria fácil, a Portuguesa se fecharia toda na defesa para segurar o resultado.

O Grêmio começou o jogo em ritmo arrasador, praticamente iniciou vencendo por 1 a 0: aos 3 minutos, Paulo Nunes marcou o primeiro gol daquele final de tarde. Naquele momento, tive a impressão de que seria barbada. Afinal, se em tão pouco tempo já ganhávamos, o segundo gol seria questão de minutos.

Mas não foi o que aconteceu. A Portuguesa, conforme era previsto, fechou-se na defesa. O Grêmio atacou bastante, mas o segundo gol insistia em não sair. E a Lusa às vezes levava perigo, rápida nos contra-ataques. Ao final do primeiro tempo, o placar mantinha-se em 1 a 0, que na prática era 1 a 2.

No segundo tempo, a situação não se modificou rapidamente. O tempo passava, o Grêmio não conseguia o segundo gol, e a Portuguesa às vezes era perigosa. Ficávamos cada vez mais nervosos, mais preocupados no Estádio Olímpico. Víamos diminuir as chances de conquistarmos o título.

Por volta dos 35 minutos do segundo tempo, substituição. Saía Dinho, que era capitão naquele dia devido à suspensão de Adílson (que levara o terceiro cartão amarelo no jogo de São Paulo), entrava Aílton. Na hora um pensamento me veio na cabeça: “o Aílton vai fazer o gol do título”.

Não estou escrevendo isto para dizer que “tenho dons premonitórios, blá blá blá”: realmente pensei nisso, mas não falei na hora (que bosta, podia ter feito aposta com alguém!). Era compreensível. Aílton vinha muito mal desde que fora contratado pelo Grêmio, no início de 1996. Sempre era vaiado. Se eu dissesse que o Aílton faria o gol do título, o pessoal ao meu redor riria da minha cara.

Aos 39, a bola estava com Carlos Miguel, que deu um balão em direção à área adversária. Àquela altura, a tática fora para o espaço, o Grêmio atacava de qualquer jeito.

O zagueiro César cabeceou a bola, mas para o meio da área, e não para fora como deveria ter feito (e felizmente não fez). De onde estava, vi a bola ser chutada e a rede balançar, mas tive a impressão de a bola batera na rede pelo lado de fora. Passou-se um milésimo de segundo e o Olímpico se levantou no grito de gol. Em outro milésimo de segundo pensei: “se 50 mil pessoas gritam gol, só pode ser gol”. E gritei junto.

Como não estava com rádio, levou cerca de meio minuto para eu saber de quem era o gol. Até que a informação chegou: gol de Aílton!

O ritmo do tempo mudou após o gol. O cronômetro deixou de correr e passou a andar devagar. Agora o Grêmio se segurava e a Portuguesa atacava. Era preciso resistir à pressão da Lusa nos últimos minutos.

Quando, depois de intermináveis minutos de acréscimo, Márcio Rezende de Freitas apitou o final de jogo, a festa tomou conta do Olímpico Monumental. Grêmio, depois de 15 anos, novamente CAMPEÃO BRASILEIRO!

Terminava uma era. Aquela era a última partida de Luiz Felipe Scolari no Grêmio. E o vitorioso presidente Fábio Koff também se despedia e passaria a dedicar-se ao Clube dos 13: deixaria o Grêmio para lutar por viradas de mesa que beneficiassem os sócios. Também saía o capitão Adílson, que retornaria ao Grêmio em 2003 como treinador, mas para salvar o Tricolor do rebaixamento.