Ah, se fosse na Venezuela…

Hoje pela manhã, um grupo de policiais foi ao DCE da USP para “pedir” aos alunos que deixassem o local devido a uma (suposta) reforma a ser empreendida pela reitoria (à qual os estudantes se opõem, assim como à presença da PM no campus). Um policial “achou” que um dos jovens presentes – coincidentemente, o único negro – não era aluno da USP, e “pediu” para que se identificasse. O estudante recusou-se a mostrar sua carteirinha ao PM e por isso foi agredido pelo mesmo, que ainda por cima sacou sua arma e a apontou para o jovem.

Depois, o mesmo policial tapou sua identificação no uniforme e recusou-se a dizer seu nome aos estudantes que o questionavam. Ué, mas o aluno agredido não o foi por não querer se identificar? Achei que a polícia deveria dar exemplo, e não adotar a filosofia do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” para reprimir utilizando-se do argumento “minha autoridade foi desacatada!”.

Nos comentários dos vídeos no YouTube, claro, os fascistas de sempre vomitam os mesmos bostejos. “Bando de maconheiros, tem de dar porrada mesmo!”, “vão estudar, vagabundos”, etc., etc.

Agora, imaginem se isso tivesse acontecido na Venezuela, com a polícia agredindo gratuitamente estudantes por eles protestarem contra o governo de Hugo Chávez…

Sobre a truculência na USP

Já li muito sobre a ocupação da reitoria da USP por cerca de 70 estudantes, retirados à força pela Polícia Militar na madrugada de segunda para terça, em cumprimento de ordem judicial.

Sobre a ocupação em si, ficou difícil formar uma opinião. Nada mais autoritário do que a polícia fazer revistas até nas portas das bibliotecas em busca de drogas e deter três estudantes por portarem maconha, quando isso não é crime desde 2006. Afinal, o reitor da USP não dizia que a presença da PM no campus era para dar mais segurança aos alunos? Que porra de “segurança” é essa, que detém cidadãos por algo que não é mais passível de detenção? Se o objetivo é combater o tráfico de drogas, não seria mais lógico prender o traficante, ao invés do usuário? Mesmo que a criminalidade no campus tenha caído com o policiamento (conforme afirmam os defensores do convênio entre a reitoria e a PM), se os alunos têm de se preocupar não só com os assaltantes, como também com a polícia, não há segurança.

Porém, ao mesmo tempo, a ocupação da reitoria não tinha legitimidade, visto que foi obra de parte vencida dos estudantes que ocupavam a Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas (FFLCH) em protesto contra a presença da PM no campus. Este grupo votou contra a desocupação da FFLCH, na noite de 1º de novembro. Derrotado na assembleia estudantil, decidiu ir para a reitoria…

Ainda assim considero inadmissível, em um país que se diz democrático, ver policiais apontando armas para estudantes já rendidos. E também pergunto onde está todo aquele efetivo (segundo a própria PM, foram 400 policiais) para cumprir sua verdadeira função, que é de dar segurança à população. Não só em São Paulo, como em qualquer outro lugar do Brasil (e mesmo do mundo), nunca falta polícia para reprimir manifestantes, estudantes etc.

E mesmo que a PM estivesse cumprindo ordem judicial, sua ação foi truculenta. Aliás, não esqueçamos que a repressão da ditadura militar não era obra apenas de agentes que agiam à margem do Estado para auxiliá-lo: quando a polícia reprimia manifestações, o fazia para “cumprir a lei” da época.

A propósito: não parece que o Brasil mudou muito pouco de 1985 para cá? Em algumas coisas, na verdade não houve nenhuma mudança.

Polícia violenta é pior do que criminoso

Concordo totalmente com o que disse o Hélio Paz em post sobre a violência da Brigada Militar contra torcedores do Grêmio que ficaram do lado de fora do Olímpico com os ingressos na mão, impedidos de assistirem Grêmio x Cruzeiro, supostamente por não haver mais lugares no estádio. (Eu estava lá dentro e garanto que ainda havia espaço, principalmente nas cadeiras, setor onde muitos proprietários – ou seja, que têm seu lugar marcado, inclusive com seus nomes gravados nas cadeiras – não puderam ingressar.)

A função da polícia é dar segurança aos cidadãos. Porém, quem nos defenderá quando é ela que comete atos criminosos? Teremos de chamar o ladrão? O Hélio disse tudo: “uma polícia aloprada é muito mais perigosa para a sociedade do que delinquentes”.

Porém, como o que não falta no mundo é demência, há gente a defender polícia violenta, que bate (ou até atira) primeiro, e pergunta depois. Provavelmente muitos dos agredidos quinta-feira no Olímpico fossem assim – espero que, depois dessa, pelo menos mudem de opinião.

O tal de “dia sem impostos”

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Segunda-feira, teve venda de “gasolina sem impostos” em um posto de Porto Alegre. Uma enorme fila de carros se formou, em busca da gasolina com “seu verdadeiro preço”.

Verdadeiro? Sim, pois é assim que a elite (que diz não precisar do Estado, mas não hesita em correr para pedir socorro a ele quando a “mão invisível” do mercado se machuca) e sua fiel escudeira classe mérdia pensam. Qualquer imposto é maléfico. Aliás, a classe mérdia acha que a vida dela é um inferno por causa “de tanto imposto”, mesmo que sejam os mais pobres os que, proporcionalmente, paguem mais impostos.

A raiva dos “de cima” se deve ao fato de que eles não precisam de muitos serviços públicos, sustentados pelos impostos, já que podem pagar para que a iniciativa privada lhes forneça o mesmo. Mas, como qualquer cidadão, têm de pagar os tributos – ajudando, assim, a manter os serviços públicos em funcionamento, mesmo não precisando deles.

Pode parecer uma estupidez pagar por algo que não se usa. Será? Pense então, por exemplo, no plano de saúde privado.

Quem gosta de ficar doente? Em sã consciência, ninguém. Mas, o plano de saúde privado serve para combater a enfermidade. Quem paga, gostaria de jamais usar – mas, vez que outra, acaba precisando. Poderia até pensar em não pagar, pois raramente fica doente, é dinheiro que não vale a pena etc. Então, que experimente ficar doente e pagar uma consulta particular…

Mas, e se não há dinheiro nem para o plano de saúde privado? Bom, todos temos direito a um público, graças ao pagamento de impostos: o SUS. O serviço muitas vezes deixa a desejar, pode e precisa melhorar, mas está lá à nossa disposição quando precisarmos dele.

O mundo sem impostos com o qual sonham os “de cima” não teria SUS. Mais: não teria asfalto para os motoristas acelerarem seus carros abastecidos com gasolina “sem imposto”, universidade pública (cujas vagas são, curiosamente, desejadas até pelos antiimposto), polícia etc.

A propósito: por mais que se pague por segurança particular, que eu saiba é só a polícia  – bancada por todos nós, com o pagamento de impostos – que tem autoridade para prender um criminoso. E quando há aumento da violência, uma das “soluções” na visão dos antiimposto é… Mais polícia!