Mario Benedetti (1920-2009)

SOBREVIVENTES

Quando em um acidente
uma explosão
um terremoto
um atentado
salvam-se quatro ou cinco
cremos
insensatos
que derrotamos a morte

mas a morte nunca
se impacienta
pois, com certeza
sabe melhor do que ninguém
que os sobreviventes
também morrem

Poema de Mario Benedetti – nascido em Paso de los Toros (Uruguai) em 14 de setembro de 1920, falecido ontem em Montevidéu.

Poema para o sábado

Parada do Velho Novo

Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo.
Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado.
A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições.
Em todas as partes viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital.
E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via tais que não gritavam.
Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.
O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros.
E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.

O poema acima, de Bertolt Brecht, foi retirado do livro “Do Terceiro Reich ao novo nazismo”, de Luiz Roberto Lopez.

Porto Alegre no futuro

Em 2008, é assim (a charge é do Kayser):

surrodromo

Logo, provavelmente será assim: é permitida a participação em manifestações de pessoas com mais de 200 anos de idade, com autorização dos pais (só o pai ou só a mãe não vale).

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Tal futuro pode estar muito próximo mesmo. Leio que a Brigada Militar estaria preparando aparato repressivo para o dia 12, quando será votada na Câmara a alteração de lei municipal que atualmente inviabiliza o projeto Pontal do Estaleiro.

Talvez sejam apenas boatos para intimidar os cidadãos contrários a tal descalabro. Mas considerando o que alguns “nobres” vereadores andam dizendo, é de se ficar atento.

Ao mesmo tempo, a última coisa que podemos fazer é nos borrarmos. Não é a nós que a polícia tem que perseguir. Se tais informações – procedam ou não – nos deixarem com medo, eles vencem.

Boa lembrança em horas como essas é um belo poema de Eduardo Alves da Costa, com destaque para a segunda estrofe:

No caminho com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

Dia da Poesia

Sexta-feira, 14 de março, foi o Dia da Poesia.

Embora este blog tenha começado com poesia, é a prosa que predomina aqui. Nada melhor do que, em comemoração ao Dia da Poesia, abrir espaço para ela.

Poeminha do contra

(Mario Quintana)

Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Vento sul

(Rodrigo Cardia)

Sopra o vento sul
Trazendo o sinal do frio,
Vai levando a chuva embora,
Vem trazendo o sol de volta.

Sopra forte o vento sul,
Chegando às minhas paragens,
Trazendo novos ares,
Lá da terra dela.

Chega com tudo o vento sul,
Vento forte, vento destruidor.
Saiu da terra dela,
Para arrasar o meu coração.

E vai-se embora o vento sul,
Me deixando o frio e o sol.
Vai-se em direção ao norte,
Deixando para trás os pedaços de mim.

(Escrita em 28 de agosto de 2005)

Cão Uivador Incolor

Era 20 de setembro
Nasce o cão
O cão uivador
Que traz a alegria
No silêncio da noite

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Poema escrito por mim em 21 de setembro de 1991, quando tinha 9 anos de idade. Ironicamente, o que menos escrevo é poesia. Mas vez que outra, acontece de surgir alguma em meus pensamentos.