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Archive for Agosto, 2008

Lembrando Mauss

Em uma cadeira de Antropologia que cursei na faculdade, tive a oportunidade de ler parte da obra de Marcel Mauss, que é conhecido pelo chamado “princípio da reciprocidade”.

De acordo com Mauss, nada é dado “de graça”. Sempre se espera receber algo em troca. Que não necessita ser material. Pode ser um bem simbólico. O princípio é resumido pela tríade “dar-receber-retribuir”.

Embora haja críticas ao modelo de Mauss – que não serão discutidas aqui nesta postagem -, seu princípio é facilmente observável na nossa sociedade.

Quando presenteamos alguém, por exemplo, esperamos que a outra pessoa também nos presenteie, com algo que tenha valor semelhante. Daí a razão dos tradicionais amigos-secretos de final de ano terem um preço máximo para os presentes: é preciso haver um equilíbrio entre todos os participantes, independentemente do poder aquisitivo de cada um, para não quebrar o espírito de confraternização. Caso contrário, haveria o risco de uma pessoa gastar 100 reais para comprar um presente e receber em troca algo que custa 2 reais. E vice-versa. O que seria extremamente desconfortável para o grupo: o “gastão” seria chamado de ostentador, e o que tem pouco dinheiro, de “mão-de-vaca”.

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Aonde quero chegar com tudo isso? Bom, quero é falar sobre a questão das doações feitas por empresas para campanhas à prefeitura de Porto Alegre.

O Grupo Gerdau doou (deu) dinheiro à todos os candidatos, com exceção de Vera Guasso (PSTU), que não aceitou. Não pensem que foi por “bondade”. Não achem que, por ter doado 100 mil reais à campanha de Luciana Genro (PSOL), a Gerdau tenha tornado-se “socialista” e “verde” (já que o PSOL está aliado ao PV).

De qualquer um que se eleger – a exceção seria Vera Guasso, que certamente não se elegerá – a Gerdau espera uma “retribuição”. Não será a devolução do dinheiro doado, mas sim, que a prefeitura atenda a seus interesses. Que não são, necessariamente, os mesmos da população de Porto Alegre…

Por essa razão, decidi: vou de Vera Guasso. O PSTU é o único partido que não está “de rabo preso” nessa eleição. Não é o único coerente: o pessoal da direita receber dinheiro de empresas não é nada estranho. De se lamentar, é ver o PSOL fazer o que tanto criticava no PT…

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, poderia ser o lema deles.

E além disso, é urgente uma mudança na legislação eleitoral. Todos os partidos tinham de ter tempo igual na televisão e no rádio, para assim terem – pelo menos teoricamente – a mesma chance de vencer. E também para que as coligações partidárias levassem em conta programas políticos, e não “tempo de exposição na mídia”.

E também deveria ser expressamente proibido receber doações de empresas privadas. O financiamento de campanhas eleitorais deveria ser público. Acabaria esse negócio de candidatos com o “rabo preso”, que ajudados na campanha procurariam retribuir em seus mandatos para os financiadores de sua eleição.

Bannalidades

Ontem não houve Grenal. Afinal, não foi Grêmio x Internacional, e sim, Banguzinho x Internacional. É um novo clássico do futebol brasileiro que está surgindo: o BANNAL.

Não foi a primeira vez que as duas equipes se enfrentaram. Infelizmente ninguém ainda fez a contabilidade do clássico, assim eu vou puxar da minha memória.

Mas antes, é preciso estabelecer um critério. Será considerado “Banguzinho” o time misto/reserva do Grêmio. E assim como uma andorinha não faz verão, um reserva não faz Banguzinho. Tem que ser boa parte do time formado por reservas.

Bom, agora vem a parte interessante: definir quais Grenais foram, na verdade, Bannais. O primeiro (e o segundo) que me vêm à cabeça foram as partidas decisivas do Campeonato Gaúcho de 1995. O Grêmio estava envolvido com a Libertadores que viria a conquistar no final daquele inesquecível mês de agosto (que foi de desgosto só para colorado). Assim, decidiu não priorizar a final do Gauchão. Entrou em campo o “Banguzinho misto” (ou seja, com alguns titulares do Grêmio), e… Foi campeão!

Assim, caso eu não esteja enganado, no dia 6 de agosto de 1995 foi disputado o primeiro Bannal da história, no campo da beira do Guaíba, que acabou em 1 a 1. Uma semana depois, no dia dos pais, o Banguzinho conquistou o título gaúcho ao vencer por 2 a 1 no Estádio Olímpico.

O terceiro Bannal que eu me lembro foi em 24 de junho de 2007, pelo Brasileirão. O Grêmio vinha de uma extenuante disputa da Libertadores, da qual foi vice-campeão – ao contrário do rival, eliminado na primeira fase – e decidiu poupar titulares. “Banguzinho misto” para o Bannal número 3, no estádio do Inter. E aconteceu assim a primeira vitória do Banguzinho no campo adversário, 2 a 0.

E os dois últimos foram pela Copa Sul-Americana de 2008. No dia 13 de agosto, quando se completaram 13 anos da primeira vitória do Banguzinho em Bannal (naquele jogo do Gauchão de 1995), aconteceu um empate em 1 a 1 no campo do Inter. E ontem, o 2 a 2 no Olímpico classificou o rival, mas o Banguzinho manteve sua invencibilidade: em cinco Bannais, nunca perdeu.

Abaixo, as estatísticas do clássico – se é que dá para chamar de clássico um confronto no qual só um dos rivais já venceu:

  • Total de Bannais: 5
  • Vitórias do Banguzinho: 2
  • Empates: 3
  • Vitórias do Inter: 0
  • Gols do Banguzinho: 8
  • Gols do Inter: 5

Como não sei se esses dados estão certos – puxei da minha memória que, modéstia a parte, é muito boa, mas ela não está livre de falhas – agradeço se alguém puder, nos comentários, corrigir eventuais erros. Desde que, é claro, leve em conta o critério que apresentei no começo da postagem.

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Atualização

A primeira correção veio no comentário do Guillermo: no dia 24 de junho de 2007 houve Grenal, e não Bannal. Afinal, a maior parte do time naquele jogo era titular: os únicos reservas eram Ramón, Amoroso e Éverton. Sandro Goiano voltou a ser titular do Grêmio com a venda de Lucas, Schiavi assumiu – por pouco tempo, é verdade – a titularidade devido à lesão de Teco, e Patrício… Bom, Patrício era o titular da lateral-direita desde 2005: “ruim” não quer dizer “reserva”.

Logo, altera-se a estatística do Bannal.

  • Total de Bannais: 4
  • Vitórias do Banguzinho: 1
  • Empates: 3
  • Vitórias do Inter: 0
  • Gols do Banguzinho: 6
  • Gols do Inter: 5

Pergunta que não quer calar

Como os moranguinhos explicam o empate com os reservas do “segundino” (como eles chamam), depois de estarem vencendo por 2 a 0? Afinal, eles dizem que a imortalidade tricolor “não existe”.

E esse empate não foi o primeiro…

Kayser sensacional

Não há retrato mais fiel da campanha eleitoral de 2008 – pelo menos aqui em Porto Alegre – do que a charge abaixo, do Kayser. Melhor, impossível!

Um texto que eu gostaria de ter escrito

Em geral não costumo publicar na íntegra textos que não sejam da minha autoria, apenas posto um trecho e sugiro ao leitor que clique no link onde se encontra o texto original na íntegra – ou seja, no blog do autor.

Mas desta vez precisei abrir uma exceção para o artigo do Ayrton Centeno, a respeito da nada empolgante campanha eleitoral de 2008 aqui em Porto Alegre. Recebi por e-mail do meu pai, que por sua vez leu o texto no Dialógico, que cita a primeira publicação do texto no RS Urgente.

O Grande Nada

Ayrton Centeno

Após os primeiros dias de propaganda eleitoral na TV em Porto Alegre, o que emerge da tela é algo que, ao longo da minha não curta vida, nunca havia visto. A começar pela sensação de que não existem mais partidos. Ou talvez haja um só, o do Nadismo. O Nadismo é desmembrado em tendências bastantes sutis: o Nadismo radical e o Nadismo moderado, o Nadismo fisiológico e o Nadismo revolucionário, entre tantas. Nenhuma delas, porém, implica conflito com a outra. Convivem harmonicamente, já que desfraldam idêntico estandarte: a defesa convicta do Grande Nada.

No Partido Nadista, todas as correntes fraternalmente empunham as mesmas propostas: fazer um Porto mais Alegre, realizar o sonho de Porto Alegre, ou afirmar, intrepidamente e não sem um certo grau de temeridade, que amam o pôr-do-sol do Guaíba. E tome-lhe contraluzes do crepúsculo e jingles de uma pieguice que alguém mal humorado diria que soqueiam violentamente o baixo ventre do eleitor.

Outro fenômeno é a ausência completa da política. A política, esta coisa chata que fermenta o nascimento de tantos conflitos foi ejetada ao ostracismo. Presume-se que, antes da deflagração da campanha, os coordenadores dos diversos Nadismos, sabiamente aconselhados pela marquetagem, reuniram-se e decidiram dar um basta nessa história de política. Chega! Onde já se viu aborrecer as pessoas, num momento de civismo e exaltação da cidadania, com discussões tão desconfortáveis como, por exemplo, saber quem e por que apóia o (a) candidato (a) X e como este mesmo (a) candidato (a) se posiciona claramente diante dos problemas concretos, presentes ou futuros da cidade?

Claro que sempre haverá aquele eleitor inconveniente querendo, por exemplo, saber do candidato qual é exatamente, sem papas na língua, sua posição a respeito do estupro imobiliário planejado da orla do Guaíba na zona sul. São aquelas chateações que acabam se refletindo lamentavelmente na redução do aporte tão necessário dos desinteressados recursos empresariais para a produção de campanhas bonitas na TV. É um tipo de extremismo que o Grande Nada não pode tolerar. Discrepâncias, sim, até poderão ser tratadas. Afinal, é preciso contentar a todos e a nenhum. Nada é exatamente igual ao outro. O Nada é Uno mas também é Múltiplo. Há que ter esta flexibilidade.

Para tanto, a TV, de modo tão absorvente, já está proporcionando à atenta cidadania um debate profícuo. Que, claro, está centrado naquilo que os candidatos e seus programas democraticamente nos oferecem: a imagem, a fachada, o lado externo de suas candidaturas.

Será, sem dúvida, impactante discutir se a candidata A tornou-se mais merecedora do sufrágio agora depois da chapinha ou se era melhor antes com os cabelos crespos [1]. Debater, conceitualmente, se o semblante sonâmbulo do candidato B é compatível com sua auto-propalada audácia e se seu ar letárgico, de fato, fomenta a esperança [2]. Ou se a blusinha da candidata C combina, republicanamente, com os seus olhos cor de anil [3]. Avaliar se houve progresso na lavourinha laboriosamente cultivada no topo do crânio pelo candidato D — eu diria que não, mas você, caro (e)leitor, pode dizer que sim, que ela é intensamente produtiva e viçosa, atingindo índices de produtividade enaltecidos até pela Farsul [4]. É seu direito. Ou, por outra, pode concordar comigo, mas responsabilizar a avara resposta da natureza à falta de apoio do Pronaf. Pronto, assim do Nada eis aí o debate instalado. Tão civilizado, tão estimulante, tão cidadão.

Templo do Grande Nada, a RBS ajudou sobremaneira na conversão dos candidatos que, um a um, vieram, genuflexos, queimar incenso no altar de Zero Hora. Um mergulho de profundidade cosmética no cotidiano dos concorrentes do qual emergimos enriquecidos pela informação de que um é papai coruja, que aquele sabe de cor as músicas da Disney, que outro adora cozinhar, que aquela foi obesa [5], que esta borda em ponto cruz, e que há ainda quem expresse sua rebeldia mesmo sem cachos e quem a faça através de brincos. Ufa!

Olívio Dutra sempre repetiu – e repete – aquele bordão que sintetiza boa parte do sentimento e das ações que Porto Alegre vivenciou especialmente nos anos 90. Aquele que afirma que, para construir uma nova e mais justa sociedade, é imprescindível que cada cidadão não seja objeto, mas sim sujeito da política. Sentiam-se e portavam-se como sujeitos, até então, somente os candidatos.

Porém, agora, neste ano da graça de 2008, largada de campanha, os candidatos é que abdicaram de serem sujeitos da política. Sua nova condição é a de objetos. Estão na TV como se estivessem na gôndola dos supermercados. Não têm história. Não porque a perderam, mas porque optaram por sepultá-la. Escolheram serem coisas. São produtos práticos e versáteis, adaptáveis a qualquer gosto ou ambiente. Desconstróem-se num palco de ilusões de olho no teleprompter dizendo um texto em que só eles acreditam (Acreditam?). Não parecem de carne e osso. Aparentam hologramas cambiantes e fugidios, projetados desde um passado longínquo e impreciso, repetindo palavras ocas que se desmancham no ar.

Quem é de esquerda apresenta uma narrativa – que carrega tanto de Nadismo quanto de ambição — sonhando cabalar o voto não apenas do eleitor de centro sempre oscilante, mas até da direita. Esta, por sua parte, lança, além do centro do tabuleiro, piscadelas para o eleitor de esquerda. A conseqüência deste discurso aguado do qual a política foi exilada só poderia ser a superfluidade. Parte de nenhum lugar para lugar algum. A diferença é que a direita está na sua: este é o mundo que pedra por pedra levanta a cada dia. É o que temos. E o que nos esmaga. À esquerda caberia questioná-lo, expor a sua estreiteza, as suas contradições, a sua insuficiência e as suas vastas iniqüidades. Mas isto só se faz fazendo campanha além da epiderme. E quem faz isso são homens e mulheres, pessoas com história, com partido, com política e com diversas e divergentes visões da vida e do mundo. Não é uma tarefa para espectros.

OBSERVAÇÕES:
[1] Luciana Genro (Dep. Fed. PSOL/RS)
[2] José Fogaça (PMDB, atual prefeito)
[3] Mª do Rosário (Dep. Fed. PT/RS)
[4] Onyx Lorenzoni (Dep. Fed. DEM/RS)
[5] Manuela D’Ávila (Dep. Fed. PCdoB/RS)

Mais uma charge

Desta vez, é do Santiago, tirada lá do Tinta China, sobre a opinião reacionária matéria publicada no panfleto de direita na revista Veja.

Gaúcho só sabe reclamar

(charge do Kayser)

A Yeda realmente investiu em habitação. Na dela própria…

Cão Uivador pautou ZH?

O caderno “Cultura” da Zero Hora de sábado deu destaque ao atual desencanto de muitas pessoas com a política, em comparação a 1984, que no Brasil teve não o Big Brother, mas sim um dos maiores movimentos de massas de nossa história, pedindo eleições diretas para presidente naquele ano. As diretas ficaram para 1989, mas quem participou dos comícios em 1984 certamente jamais esquecerá a experiência.

O curioso é que a Zero Hora usou a fórmula “desencanto em comparação com as Diretas Já!” poucos dias depois de eu publicar o depoimento do meu pai sobre aquela época. O texto que ele escreveu fazia referência à discussão sobre anular ou não o voto no dia 5 de outubro, que o Hélio Paz iniciou no dia 14 e retomou na terça passada, após eu publicar o texto do meu pai.

Certamente foi mera coincidência tal fato… Ou será que realmente o Cão Uivador pautou a Zero Hora?

O grande irmão vigia você

Um curto mas ótimo vídeo, chamado “Big Brother State”, que com legendas só achei em espanhol. Mostra como por trás do discurso de “segurança para o cidadão”, os cada vez mais complexos sistemas de vigilância criam um estado policial, no qual todos são suspeitos até prova em contrário.

Perguntinha básica: quantas câmeras vigiam você durante o dia? Talvez sejamos mais vistos do que imaginamos…

Coisas do “país do futebol” (será mesmo?)

Li no blog sobre futebol que o Hélio Paz escreve que as craques da seleção feminina de futebol do Brasil precisaram comparecer a um compromisso na “Casa Brasil” em Pequim – desperdício de dinheiro público para tentar mais uma vez (e provavelmente não conseguir mais uma vez) trazer os Jogos Olímpicos para o país – de táxi. Enquanto isso, nossa medíocre seleção masculina tinha um ônibus à sua disposição, após o baile diante da Argentina…

Clique aqui para ler mais.

E clique aqui para ler o ótimo artigo de Idelber Avelar sobre a xenofobia anti-argentina que vigora na imprensa esportiva brasileira. Aliás, lembro que sempre associam futebol argentino à violência, mas ontem quem bateu não foi a Argentina. E lembro também que em 2003 o Corinthians enfrentou o River Plate pelas oitavas-de-final da Libertadores: os argentinos deram um banho de bola, enquanto os brasileiros só deram porrada – e perderam.

Sobre o artigo do Idelber: ele levanta uma discussão interessante de ser abordada, a respeito de alguns “dogmas patrióticos” existentes em diferentes países. No caso do Brasil, é o futebol. Em breve, escreverei mais sobre o assunto.