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Archive for 31/08/2007

Ovos no Piratini

Hoje à tarde, em visita ao Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa, consultei edições da Zero Hora de abril de 1999. Estou cursando na faculdade uma cadeira de seminário cujo tema é a mídia ao longo da História, e penso em fazer meu trabalho final sobre a cobertura da imprensa gaúcha em relação à decisão da Ford de construir sua fábrica em outro Estado – que lhe desse uma baita grana de mão beijada -, o que motivou inúmeros ataques da direita rio-grandense (a mídia incluída) ao então governador Olívio Dutra.

Logo no primeiro jornal que consultei, a capa me fez lembrar do episódio da chuva de ovos sobre o Palácio Piratini, em 31 de março de 1999. Deputados da oposição ao governo Olívio promoveram um protesto contra a decisão do governador de não conceder incentivos fiscais às montadoras de automóveis (GM e Ford) que haviam assinado contrato com o Estado durante o (des)governo Antonio Britto (1995-1998). Olívio queria que as montadoras ficassem no Rio Grande, mas os contratos deveriam ser renegociados. A GM cedeu, a Ford não, e em 28 de abril de 1999 anunciou a desistência de instalar sua nova fábrica no Estado.

No protesto de 31 de março de 1999, o governador ordenou à Brigada Militar que não interviesse. Não queria repressão. E fez mais: subiu no carro de som que os manifestantes – em sua maioria eram de Gravataí (onde a GM se instalou), Guaíba (onde era prevista a instalação da Ford) e Eldorado do Sul (município vizinho a Guaíba) – haviam levado para a frente do Piratini, e tentou explicar o motivo da não-concessão dos incentivos às montadoras. Foi intensamente vaiado pelos manifestantes, e ainda levou uma chuva de ovos. Olívio também foi atingido por uma lata de refrigerante, e então retirado do caminhão por seus assessores.

Os ovos atingiram não só o governador, mas também a fachada do Palácio Piratini, e o ato foi criticado até pela RBS. Paulo Sant’Ana elogiou Olívio Dutra em sua coluna, dizendo que comprovou ser “autêntico e corajoso” ao subir para discursar no caminhão de som dos manifestantes. Mas sobrou pra ele também: o Barrionuevo, aquele direitoso, chamou Olívio de “populista e autoritário”.

Não cheguei a consultar os jornais dos dias que se seguiram à saída da Ford. Me faltou tempo, quando os pedi o museu já estava fechando. Mas lembro do desespero das “viúvas da Ford”, como Rogério Mendelski, para quem uma chuva mais forte ou uma estiagem¹ (e teve estiagem no governo Olívio, nos verões de 1999 e 2000) eram todas culpa do Olívio, “que mandou a Ford embora”.

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¹ Durante a campanha eleitoral de 2006, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto (2003-2006) disse que as estiagens dos verões de 2004, 2005 e 2006 atrapalharam sua administração, o que não teria acontecido no governo Olívio. Mas na edição de 8 de abril de 1999 de Zero Hora, há uma matéria sobre as chuvas que caíam no Estado por aqueles dias, que ajudaram a recuperar os níveis dos rios.